O Abismo Social na Chapada Vale do Itaim: os 5 municípios com menor qualidade de vida do território
Na contramão do potencial energético bilionário, Acauã, Betânia do Piauí, Curral Novo do Piauí, Paulistana e Padre Marcos revelam a face mais dura da desigualdade regional e ocupam as últimas posições do ranking — enquanto a região sedia o Complexo Eólico Ventos de São Zacarias, com 456 MW de capacidade
Vista panorâmica de Acauã-PI (Imagem de internet)
O território da Chapada Vale do Itaim, localizado no sudeste do Piauí, enfrenta um momento de profunda reflexão sobre seus indicadores de desenvolvimento humano e social. Dados consolidados do Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2026) revelam que cinco municípios da região — Paulistana, Curral Novo do Piauí, Queimada Nova, Betânia do Piauí e Acauã — figuram na parte inferior do ranking nacional, apresentando uma menor qualidade de vida em comparação às médias estadual e federal. Enquanto a média do Brasil se estabelece em 63,40 e a do Piauí em 60,48, estas localidades registram índices que variam entre 53,8 e 55,68, evidenciando um hiato estrutural que desafia as gestões públicas locais.
A Chapada Vale do Itaim — o mais novo dos 12 Territórios de Desenvolvimento do Piauí, criado pelas Leis Complementares nº 87/2007 e 6.967/2017 — reúne 130.015 habitantes distribuídos em 16 municípios do semiárido piauiense. A região abriga o Complexo Eólico Ventos de São Zacarias, em Simões, com 456 MW de capacidade instalada — suficiente para abastecer 1,2 milhão de residências —, além de parques eólicos e solares em Marcolândia, Caldeirão Grande, Queimada Nova, Betânia do Piauí, Paulistana e Curral Novo.
O IPS é uma ferramenta multidimensional, que mede 57 indicadores socioambientais sem considerar variáveis econômicas, e avalia se as pessoas têm o que precisam para prosperar, dividindo-se em três dimensões fundamentais: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades. Ao contrário do PIB, que mede apenas o desempenho econômico, o IPS foca no resultado final da política pública na vida do cidadão. Na Chapada Vale do Itaim, o contraste é nítido: alguns desses municípios possuem uma geração de riqueza expressiva, impulsionada por setores como a mineração e a energia eólica, mas essa pujança financeira ainda não se traduziu de forma proporcional em avanços no saneamento, saúde e educação de base.
Tabelas de Gestão e Desempenho Fiscal
Abaixo, os dados consolidados que cruzam a realidade política e a eficiência financeira dos municípios analisados.
Tabela 1: Panorama de Gestão Política e Social
|
Município |
Prefeito(a) |
Partido |
Status (2024) |
IPS 2026 |
Evolução IPS 2026-2024 |
Posição no território |
|
Paulistana |
Osvaldo da Abelha Branca |
MDB |
Novo mandato |
55,68 |
1,47 |
9º |
|
Curral Novo do Piauí |
Juninho de Marinalva |
MDB |
Novo Mandato |
54,77 |
0,91 |
12º |
|
Queimada Nova |
Gilmar |
PSD |
Reeleito |
54,64 |
1,17 |
11º |
|
Betânia do Piauí |
Josivan |
PSD |
Novo Mandato |
54,40 |
2,51 |
4º |
|
Acauã |
Molão |
PSD |
Reeleito |
53,80 |
0,68 |
13º |
Tabela 2: Correlação VA ICMS vs. IPS 2026
|
Município |
VA ICMS (Ref. 2022/23) |
IPS 2026 |
Eficiência de Conversão |
|
Curral Novo do Piauí |
R$ 361.979.877,82 |
54,77 |
Muito Baixa |
|
Queimada Nova |
R$ 296.090.900,76 |
54,64 |
Baixa |
|
Betânia do Piauí |
R$ 193.313.625,16 |
54,40 |
Em Observação |
|
Paulistana |
R$ 153.935.141,24 |
55,68 |
Moderada |
|
Acauã |
R$ 7.530.021,96 |
53,80 |
Limitada por Recurso |
NOTA: Se VA fosse diretamente proporcional ao IPS, a ordem das colunas seria idêntica. Não é. O que se vê é uma correlação nula ou negativa entre os dois índices — um fenômeno que merece exame.
Os 5 municípios — retrato de múltiplas carências
1. Acauã: A base do ranking e a necessidade de intervenção urgente (IPS 53,80 — 16º no território e 210º no Piauí)
Com 6.422 habitantes, Acauã registra o menor IPS de todo o Território da Chapada Vale do Itaim (53,80) e um dos mais baixos do Piauí. O município tem sua economia ancorada na agricultura de subsistência e na pecuária de pequeno porte. A distância de 19,3 pontos para Gavião Peixoto (SP), referência nacional com 73,10, e de 6,68 pontos abaixo da média estadual dimensiona o tamanho do desafio.
Acauã tem também a menor evolução entre os cinco últimos (+0,68, e 13º lugar em progresso entre 16). A combinação é letal: já é o mais atrasado e está melhorando no ritmo mais lento.
Diferente de seus vizinhos, Acauã também enfrenta fragilidade fiscal, com um VA ICMS de apenas R$ 7.530.021,96 (base 2022) — 48× menos que Curral Novo. Com essa base, não há política pública que gere IPS alto. A classificação "Limitada por Recurso" é a mais honesta: o problema de Acauã não é converter, é não ter o que converter.
A equação é simples: sem base econômica, não há arrecadação; sem arrecadação, não há investimento em saneamento, saúde ou educação. Acauã precisa de desenvolvimento econômico antes de desenvolvimento social — ou, no mínimo, de transferências e políticas compensatórias robustas. O prefeito Molão (PSD), reeleito com 82,57% dos votos, governa em um cenário de escassez de recursos e indicadores sociais críticos.
A situação de Acauã é emblemática por combinar baixo progresso social com baixa capacidade financeira própria. Aqui, a dependência de transferências governamentais e a necessidade de parcerias com o Estado e a União são vitais. O foco da gestão precisa ser o básico: água potável, saneamento e saúde preventiva. O alto índice de aprovação eleitoral do prefeito Molão confere capital político para realizar reformas administrativas necessárias, mas o progresso social exigirá uma gestão de recursos extremamente técnica e eficiente.
O IPS de 53,80 reflete carências estruturais históricas. A cidade, cujo nome remonta à abundância da vegetação de acauã na região, ainda busca seu caminho de desenvolvimento.
2. Betânia do Piauí: A explosão fiscal e o desafio da infraestrutura (IPS 54,40 — 15º no território e 202º no Estado)
Com 6.596 habitantes, Betânia do Piauí tem o segundo pior índice do território. O município integra a rota dos investimentos em energia limpa — com parques eólicos em implantação ao redor da cidade —, mas esse fluxo de capital ainda não produziu reflexos mensuráveis no bem-estar da população.
O IPS de 54,40 está 6,08 pontos abaixo da média do Piauí e 9,0 pontos abaixo da média Brasil. O contraste entre a modernidade dos cataventos que geram energia para milhares de residências e a realidade das ruas da cidade ilustra o paradoxo da região.
Em Betânia do Piauí, os números fiscais recentes são notáveis. O VA ICMS do município disparou de R$ 19.958.246,07 em 2022 para R$ 193.313.625,16 em 2023. No entanto, o IPS 2026 permanece em 54,4, colocando a cidade na posição 5076º do ranking nacional. O prefeito Josivan (PSD), eleito com 60,17% dos votos, administra uma população que ainda aguarda a tradução dessa nova realidade financeira em melhorias tangíveis.
VA de R$ 193 milhões, IPS de 54,40. A eficiência está no meio do grupo. O VA é 25,6× maior que o de Acauã, mas o IPS é apenas 0,6 ponto superior. A diferença é que Betânia registrou a maior evolução de IPS do território (+2,51 pontos entre ciclos), sugerindo que a conversão pode estar melhorando. Se a trajetória se mantiver, Betânia pode sair da categoria "Em Observação" para "Moderada" nos próximos ciclos.
A rápida ascensão da arrecadação em Betânia oferece uma oportunidade histórica para a gestão municipal. Com um IPS significativamente abaixo da média estadual (60,48), há uma margem ampla para investimentos em moradia e segurança pessoal. A eleição do gestor indica uma renovação administrativa que deve, obrigatoriamente, focar na aplicação técnica desses recursos para reverter o desempenho mais baixo nas dimensões de Oportunidades e inclusão social.
Apesar do segundo pior IPS absoluto (54,40), Betânia do Piauí registrou a quarta maior evolução entre todos os 16 municípios do território Chapada Vale do Itaim (+2,51), na comparação do IPS 2026 ao de 2024. Isso contradiz a narrativa de estagnação: mesmo com 0,04% de abastecimento de água e 51,06% de esgotamento, o município melhorou em ritmo acelerado nos últimos dois anos. O prefeito Josivan (PSD), eleito para primeiro mandato, pode estar colhendo resultados de políticas de médio prazo.
3. Queimada Nova: Crescimento econômico em busca de impacto social (IPS 54,64 — 14º no território e 198º no Piauí)
Queimada Nova, que em 2021 foi destaque estadual por registrar o maior crescimento do PIB no Piauí, possui hoje um IPS de 54,64 (5033º no Brasil). Com 8.738 habitantes, o município é gerido pelo prefeito Gilmar (PSD), reeleito com 61,61% dos votos. O VA ICMS de 2022 foi de R$ 296.090.900,76, consolidando a cidade como uma força econômica emergente na Chapada Vale do Itaim.
VA de R$ 296 milhões, IPS de 54,64. A segunda pior eficiência. Queimada Nova tem VA 2,4× maior que Paulistana, mas IPS inferior. A riqueza está presente — 0,16% de esgoto tratado indica que ela não chega à infraestrutura básica.
Apesar do dinamismo econômico, o progresso social caminha em passos mais lentos. A análise dos dados sugere que o município ainda luta para superar deficiências históricas em Fundamentos do Bem-Estar, como a qualidade do meio ambiente e o acesso ao conhecimento básico. O desafio para esse segundo mandato de Gilmar é equilibrar a atração de investimentos com políticas públicas que garantam que o crescimento do PIB seja sentido na mesa e na saúde do cidadão queimada-novense.
Os dados sugerem que, embora existam desafios, há uma base sobre a qual se pode construir políticas de inclusão e oportunidades, especialmente voltadas para a juventude e o mercado de trabalho. Com uma evolução do IPS 2026 em relação a 2024 mediana (+1,17, ficando em 11º lugar na Chapada Vale do Itaim), seu dado crítico continua sendo o esgotamento sanitário de 0,16% — o pior indicador do território.
4. Curral Novo do Piauí: O paradoxo da riqueza e do bem-estar (IPS 54,77 — 13º no território e 197º no Estado)
5.191 habitantes formam a população deste município que, assim como Betânia, integra a rota dos investimentos em energia limpa na região. Seu IPS de 54,77 está 5,71 pontos abaixo da média do Piauí e 8,63 pontos abaixo da média Brasil. Com uma evolução do IPS 2026 em relação a 2024 de +0,91, a 12ª no território, Curral Novo tem um desafio duplo: reverter indicadores baixos e acelerar um progresso que vinha tímido.
O nome "Curral Novo" remete à tradição pecuária que historicamente moldou a ocupação da região — mas a paisagem hoje é cada vez mais marcada por torres eólicas, não por currais. A transformação econômica, no entanto, ainda não chegou aos indicadores sociais.
Curral Novo do Piauí apresenta um dos cenários mais complexos do território. Com a menor população entre os cinco analisados, o município detém um VA ICMS impressionante de R$ 361.979.877,82 (base 2022), o que lhe confere o maior índice de participação (1,0712807) deste grupo. Entretanto, essa riqueza contábil não impede que o município registre um IPS de apenas 54,77, situando-se na posição 5010º do Brasil.
A eficiência de conversão de Curral Novo do Piauí, é a pior do grupo. A tradução prática: a economia local gera riqueza equivalente a R$ 6,6 milhões para cada ponto de IPS. Em Paulistana, a mesma "unidade" de bem-estar custa R$ 2,8 milhões. Curral Novo precisa de 2,4× mais atividade econômica para produzir o mesmo resultado social.
Isso aponta para uma economia concentrada: grandes empreendimentos (exploração de commodities) que geram valor para o ICMS mas empregam pouca gente, distribuem pouca renda e não se traduzem em investimento público em saneamento, saúde ou educação. Não por acaso, Curral Novo tem a menor expectativa de vida do grupo (66,1 anos) e apenas 1,24% de esgotamento sanitário.
A gestão está sob o comando de Juninho de Marinalva (MDB), eleito com uma expressiva votação de 99,14% em 2024.
A discrepância entre o faturamento econômico e a qualidade de vida em Curral Novo sugere uma baixa eficiência na conversão de recursos fiscais em benefícios sociais diretos. O município é um exemplo claro de como a presença de grandes empreendimentos — como parques eólicos e mineração — gera impostos, mas exige estratégias municipais mais agressivas para que esses recursos melhorem o saneamento básico e o acesso à informação, componentes vitais do IPS que costumam ser deficitários em regiões de rápido crescimento industrial.
5. Paulistana: O polo regional e a pressão da demanda (IPS 55,68 — 12º no território e 184º no Piauí)
Paulistana é, de longe, o caso mais emblemático do paradoxo da Chapada Vale do Itaim. com uma população de 21.633 habitantes, é a maior cidade deste grupo e exerce um papel de polo regional para o território. Sob a nova gestão do prefeito Osvaldo da Abelha Branca (MDB), eleito no pleito de 2024, o município apresenta um IPS de 55,68, ocupando a posição 4792º no ranking nacional. Por ser um centro de serviços, Paulistana enfrenta o desafio de atender não apenas sua população, mas também a demanda flutuante de cidades vizinhas, o que pressiona os indicadores de Necessidades Humanas Básicas.
A evolução do IPS 2026 em comparação ao ano de 2024 foi de +1,47 pontos, a segunda melhor entre os cinco últimos, e o 9º melhor entre os 16 municípios do território Chapada Vale do Itaim, o que sugere uma trajetória de melhoria nos últimos dois anos — cabendo à gestão dar continuidade.
A cidade que mais gera riqueza e concentra serviços na região deveria ser a vitrine do território. Em vez disso, seu IPS está mais próximo do último colocado (Acauã, 53,80 — diferença de 1,88 ponto) do que da média do Piauí (60,48 — diferença de 4,80 pontos). É o caso mais agudo de ineficiência de conversão entre dinamismo econômico e progresso social.
No aspecto fiscal, o Valor Adicionado (VA) do ICMS de Paulistana saltou de R$ 79.095.704,55 em 2022 para R$ 153.935.141,24 em 2023, conforme dados do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI). Este crescimento econômico robusto, no entanto, ainda encontra barreiras para se converter em progresso social efetivo. A gestão reeleita possui o desafio de utilizar este incremento de receita para elevar o município acima da média estadual, focando especialmente na infraestrutura urbana e na qualidade dos serviços de saúde primária.
Paulistana tem o menor VA entre as maiores economias do grupo (R$ 154 milhões) e o maior IPS (55,68). É o único caso de conversão moderada — a cidade-polo do território consegue transformar atividade econômica em qualidade de vida com mais eficiência.
Cada ponto de IPS em Paulistana custa R$ 2,77 milhões em VA — a melhor relação do grupo. Isso sugere uma economia mais diversificada (serviços, comércio, administração pública) e maior capilaridade dos benefícios econômicos.
Análise Crítica: O contraste entre riqueza e vida real
Ao analisar o grupo de municípios, emerge um padrão preocupante: a riqueza gerada no território não está sendo convertida em progresso social na mesma velocidade. O comparativo com Gavião Peixoto (SP), que lidera o Brasil com um IPS de 73,10, mostra que a distância a ser percorrida é vasta. Mesmo comparando com a média do Piauí (60,48), todos os cinco municípios estão em patamares inferiores, o que indica que a Chapada Vale do Itaim é uma das zonas de maior vulnerabilidade social do estado.
O caso de Curral Novo do Piauí é o mais gritante na análise de correlação fiscal. Com um VA ICMS superior a R$ 360 milhões, o município possui recursos que, em tese, permitiriam uma infraestrutura de primeiro mundo para seus 5 mil habitantes. No entanto, seu IPS é inferior ao de Paulistana, que possui quatro vezes mais habitantes e metade do VA proporcional. Isso demonstra que o volume de dinheiro em caixa não garante, por si só, o bem-estar da população; a eficiência da gestão e a priorização de gastos são os verdadeiros motores do progresso.
"A eficiência na conversão de riqueza em progresso social é o maior desafio dos gestores do semiárido. Ter arrecadação recorde sem saneamento básico é um paradoxo que o IPS 2026 expõe com clareza."
Caminhos para a Transformação: O Método Gestão de Impacto (MGI)
Para reverter este quadro, as gestões municipais precisam adotar modelos de governança focados em resultados mensuráveis. O Método Gestão de Impacto (MGI) oferece quatro pilares fundamentais para essa transformação:
- Integração de Resultado: É imperativo que as secretarias de Saúde, Educação e Infraestrutura não operem como ilhas. O progresso social em saneamento (infraestrutura) impacta diretamente na redução de doenças hídricas (saúde) e na frequência escolar (educação).
- Escuta Estratégica: As prefeituras devem implementar canais de ouvidoria ativa e consultas públicas para que o orçamento municipal seja direcionado às carências reais apontadas pelo IPS, e não apenas a obras de visibilidade estética.
- Métricas de Impacto: A elaboração do PPA (Plano Plurianual) e da LOA (Lei Orçamentária Anual) deve conter KPIs (indicadores-chave de desempenho) baseados nas dimensões do IPS. Se o município tem baixa pontuação em "Acesso à Água", a meta orçamentária deve ser o aumento percentual de domicílios atendidos.
- Narrativa de Valor: A comunicação institucional deve focar em resultados concretos para o cidadão. Transparência na aplicação dos recursos do VA ICMS ajuda a construir confiança e engajamento social.
Mais do que diagnosticar, os dados apontam para um caminho: os cinco municípios precisam de uma gestão orientada a impacto, que converta recursos escassos em resultados mensuráveis. O Método Gestão de Impacto (MGI) propõe três eixos de intervenção:
Para Acauã — prioridade: necessidades humanas básicas
Com o menor IPS do território (53,80), o município precisa de um choque de gestão nas áreas de saneamento, saúde básica e segurança alimentar antes de qualquer política de "desenvolvimento econômico" de segundo nível.
Para Betânia do Piauí — converter energia em bem-estar
Os parques eólicos geram riqueza, mas não a retêm localmente. O município precisa de mecanismos fiscais e de compensação social que transformem os megawatts em melhorias concretas para a população.
Para Queimada Nova — romper o paradoxo da riqueza que não vira esgoto
Queimada Nova é o retrato mais cruel da desconexão entre economia e qualidade de vida no território. Tem o segundo maior VA entre os cinco (R$ 296 milhões) e ostenta o pior indicador de esgotamento sanitário de toda a Chapada Vale do Itaim: 0,16%. Apenas 12,88% da população tem água tratada. A riqueza gerada pelo agronegócio e pela atividade econômica local não está sendo convertida em infraestrutura básica — e o prefeito Gilmar (PSD), reeleito, carrega a responsabilidade direta por esse resultado depois de um mandato completo.
O MGI sugere para Queimada Nova uma gestão de choque na infraestrutura sanitária: criar um plano plurianual vinculado a receitas do ICMS para universalização do esgotamento sanitário, com metas semestrais auditáveis. O município tem folga orçamentária que Acauã não tem — o problema não é a falta de recurso, é a prioridade política. Programas de saúde da família ampliados e incentivos fiscais condicionados à contrapartida social para os grandes geradores de VA podem acelerar a conversão da riqueza em dignidade.
Para Curral Novo do Piauí — planejamento de largo prazo
Com nova gestão e orçamento limitado (5.191 habitantes), o foco deve estar em políticas de alto impacto com baixo custo: programas de saúde da família, ampliação da cobertura de saneamento e parcerias para educação profissionalizante.
Para Paulistana — romper o paradoxo do polo regional
O caso mais emblemático exige uma revisão profunda da alocação orçamentária. Paulistana concentra serviços, mas não entrega qualidade de vida. É preciso auditoria de impacto social das políticas públicas em curso e redirecionamento de recursos para as áreas com piores indicadores.
Benchmarking com os líderes do território
Enquanto os cinco piores municípios lutam para superar a barreira dos 56 pontos, o melhor do território — Francisco Macedo (2.985 habitantes, IPS 59,89) — mostra que é possível fazer mais com menos. O menor município da Chapada Vale do Itaim alcança a melhor qualidade de vida da região, superando até mesmo o polo regional Paulistana por mais de 4 pontos.
A diferença entre Francisco Macedo (1ª posição) e Acauã (14ª posição) é de 6,09 pontos — uma distância que, dentro de um mesmo território com apenas 16 municípios, expõe desigualdades profundas na capacidade de gestão e na priorização de políticas públicas.
Para referência nacional, Gavião Peixoto (SP) alcança 73,10 de IPS — uma diferença de 19,30 pontos para Acauã, o pior do território.
Fechamento
Os dados do IPS Brasil 2026 não contam uma história de fracasso — contam uma história de oportunidades não convertidas. A Chapada Vale do Itaim é uma das regiões de maior potencial energético do Piauí, com ventos que geram energia para mais de um milhão de residências e um solo que recebe investimentos bilionários em infraestrutura limpa. Mas esse potencial não chegou às ruas de Acauã, Betânia, Queimada Nova, Curral Novo e Paulistana.
O paradoxo é evidente: a região ilumina casas em outras partes do Brasil enquanto sua própria população carece de água tratada, saneamento básico, acesso à saúde de qualidade e oportunidades reais de crescimento.
O Método Gestão de Impacto (MGI) propõe exatamente isto: sair do ciclo de diagnóstico para um ciclo de intervenção monitorada, onde cada recurso público é investido com base em evidências e cada política é desenhada para gerar impacto mensurável na vida das pessoas.
Para os gestores — reeleitos ou novatos — de Acauã, Betânia do Piauí, Queimada Nova, Curral Novo do Piauí e Paulistana, o recado é direto: os dados estão postos. O próximo IPS Brasil 2027 dirá se o rumo mudou.
Nota Editorial: Esta reportagem foi produzida com base nos dados oficiais do IPS Brasil 2026 e na lista atualizada de gestores municipais do Piauí, visando oferecer uma visão técnica e humana sobre o desenvolvimento regional.
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