CHAPADA VALE DO ITAIM

O Abismo Social na Chapada Vale do Itaim: os 5 municípios com menor qualidade de vida do território

Na contramão do potencial energético bilionário, Acauã, Betânia do Piauí, Curral Novo do Piauí, Paulistana e Padre Marcos revelam a face mais dura da desigualdade regional e ocupam as últimas posições do ranking — enquanto a região sedia o Complexo Eólico Ventos de São Zacarias, com 456 MW de capacidade

26 de julho de 2026 às 09:54 43 visualizações

Vista panorâmica de Acauã-PI (Imagem de internet)

 

O território da Chapada Vale do Itaim, localizado no sudeste do Piauí, enfrenta um momento de profunda reflexão sobre seus indicadores de desenvolvimento humano e social. Dados consolidados do Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2026) revelam que cinco municípios da região — Paulistana, Curral Novo do Piauí, Queimada Nova, Betânia do Piauí e Acauã — figuram na parte inferior do ranking nacional, apresentando uma menor qualidade de vida em comparação às médias estadual e federal. Enquanto a média do Brasil se estabelece em 63,40 e a do Piauí em 60,48, estas localidades registram índices que variam entre 53,8 e 55,68, evidenciando um hiato estrutural que desafia as gestões públicas locais.

 

A Chapada Vale do Itaim — o mais novo dos 12 Territórios de Desenvolvimento do Piauí, criado pelas Leis Complementares nº 87/2007 e 6.967/2017 — reúne 130.015 habitantes distribuídos em 16 municípios do semiárido piauiense. A região abriga o Complexo Eólico Ventos de São Zacarias, em Simões, com 456 MW de capacidade instalada — suficiente para abastecer 1,2 milhão de residências —, além de parques eólicos e solares em Marcolândia, Caldeirão Grande, Queimada Nova, Betânia do Piauí, Paulistana e Curral Novo.

 

O IPS é uma ferramenta multidimensional, que mede 57 indicadores socioambientais sem considerar variáveis econômicas, e avalia se as pessoas têm o que precisam para prosperar, dividindo-se em três dimensões fundamentais: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades. Ao contrário do PIB, que mede apenas o desempenho econômico, o IPS foca no resultado final da política pública na vida do cidadão. Na Chapada Vale do Itaim, o contraste é nítido: alguns desses municípios possuem uma geração de riqueza expressiva, impulsionada por setores como a mineração e a energia eólica, mas essa pujança financeira ainda não se traduziu de forma proporcional em avanços no saneamento, saúde e educação de base.

 


 

Tabelas de Gestão e Desempenho Fiscal

Abaixo, os dados consolidados que cruzam a realidade política e a eficiência financeira dos municípios analisados.

 

Tabela 1: Panorama de Gestão Política e Social

Município

Prefeito(a)

Partido

Status (2024)

IPS 2026

Evolução IPS 2026-2024

Posição no território

Paulistana

Osvaldo da Abelha Branca

MDB

Novo mandato

55,68

1,47

9º

Curral Novo do Piauí

Juninho de Marinalva

MDB

Novo Mandato

54,77

0,91

12º

Queimada Nova

Gilmar

PSD

Reeleito

54,64

1,17

11º

Betânia do Piauí

Josivan

PSD

Novo Mandato

54,40

2,51

4º

Acauã

Molão

PSD

Reeleito

53,80

0,68

13º

 

 

Tabela 2: Correlação VA ICMS vs. IPS 2026

Município

VA ICMS (Ref. 2022/23)

IPS 2026

Eficiência de Conversão

Curral Novo do Piauí

R$ 361.979.877,82

54,77

Muito Baixa

Queimada Nova

R$ 296.090.900,76

54,64

Baixa

Betânia do Piauí

R$ 193.313.625,16

54,40

Em Observação

Paulistana

R$ 153.935.141,24

55,68

Moderada

Acauã

R$ 7.530.021,96

53,80

Limitada por Recurso

 

NOTA: Se VA fosse diretamente proporcional ao IPS, a ordem das colunas seria idêntica. Não é. O que se vê é uma correlação nula ou negativa entre os dois índices — um fenômeno que merece exame.


 

Os 5 municípios — retrato de múltiplas carências

 

1. Acauã: A base do ranking e a necessidade de intervenção urgente (IPS 53,80 — 16º no território e 210º no Piauí)

 

Com 6.422 habitantes, Acauã registra o menor IPS de todo o Território da Chapada Vale do Itaim (53,80) e um dos mais baixos do Piauí. O município tem sua economia ancorada na agricultura de subsistência e na pecuária de pequeno porte. A distância de 19,3 pontos para Gavião Peixoto (SP), referência nacional com 73,10, e de 6,68 pontos abaixo da média estadual dimensiona o tamanho do desafio.

 

Acauã tem também a menor evolução entre os cinco últimos (+0,68, e 13º lugar em progresso entre 16). A combinação é letal: já é o mais atrasado e está melhorando no ritmo mais lento.

 

Diferente de seus vizinhos, Acauã também enfrenta fragilidade fiscal, com um VA ICMS de apenas R$ 7.530.021,96 (base 2022) — 48× menos que Curral Novo. Com essa base, não há política pública que gere IPS alto. A classificação "Limitada por Recurso" é a mais honesta: o problema de Acauã não é converter, é não ter o que converter.

 

A equação é simples: sem base econômica, não há arrecadação; sem arrecadação, não há investimento em saneamento, saúde ou educação. Acauã precisa de desenvolvimento econômico antes de desenvolvimento social — ou, no mínimo, de transferências e políticas compensatórias robustas. O prefeito Molão (PSD), reeleito com 82,57% dos votos, governa em um cenário de escassez de recursos e indicadores sociais críticos.

 

A situação de Acauã é emblemática por combinar baixo progresso social com baixa capacidade financeira própria. Aqui, a dependência de transferências governamentais e a necessidade de parcerias com o Estado e a União são vitais. O foco da gestão precisa ser o básico: água potável, saneamento e saúde preventiva. O alto índice de aprovação eleitoral do prefeito Molão confere capital político para realizar reformas administrativas necessárias, mas o progresso social exigirá uma gestão de recursos extremamente técnica e eficiente.

 

O IPS de 53,80 reflete carências estruturais históricas. A cidade, cujo nome remonta à abundância da vegetação de acauã na região, ainda busca seu caminho de desenvolvimento.

 


 

2. Betânia do Piauí: A explosão fiscal e o desafio da infraestrutura (IPS 54,40 — 15º no território e 202º no Estado)

 

Com 6.596 habitantes, Betânia do Piauí tem o segundo pior índice do território. O município integra a rota dos investimentos em energia limpa — com parques eólicos em implantação ao redor da cidade —, mas esse fluxo de capital ainda não produziu reflexos mensuráveis no bem-estar da população.

 

O IPS de 54,40 está 6,08 pontos abaixo da média do Piauí e 9,0 pontos abaixo da média Brasil. O contraste entre a modernidade dos cataventos que geram energia para milhares de residências e a realidade das ruas da cidade ilustra o paradoxo da região.

 

Em Betânia do Piauí, os números fiscais recentes são notáveis. O VA ICMS do município disparou de R$ 19.958.246,07 em 2022 para R$ 193.313.625,16 em 2023. No entanto, o IPS 2026 permanece em 54,4, colocando a cidade na posição 5076º do ranking nacional. O prefeito Josivan (PSD), eleito com 60,17% dos votos, administra uma população que ainda aguarda a tradução dessa nova realidade financeira em melhorias tangíveis.

 

VA de R$ 193 milhões, IPS de 54,40. A eficiência está no meio do grupo. O VA é 25,6× maior que o de Acauã, mas o IPS é apenas 0,6 ponto superior. A diferença é que Betânia registrou a maior evolução de IPS do território (+2,51 pontos entre ciclos), sugerindo que a conversão pode estar melhorando. Se a trajetória se mantiver, Betânia pode sair da categoria "Em Observação" para "Moderada" nos próximos ciclos.

 

A rápida ascensão da arrecadação em Betânia oferece uma oportunidade histórica para a gestão municipal. Com um IPS significativamente abaixo da média estadual (60,48), há uma margem ampla para investimentos em moradia e segurança pessoal. A eleição do gestor indica uma renovação administrativa que deve, obrigatoriamente, focar na aplicação técnica desses recursos para reverter o desempenho mais baixo nas dimensões de Oportunidades e inclusão social.

 

Apesar do segundo pior IPS absoluto (54,40), Betânia do Piauí registrou a quarta maior evolução entre todos os 16 municípios do território Chapada Vale do Itaim (+2,51), na comparação do IPS 2026 ao de 2024. Isso contradiz a narrativa de estagnação: mesmo com 0,04% de abastecimento de água e 51,06% de esgotamento, o município melhorou em ritmo acelerado nos últimos dois anos. O prefeito Josivan (PSD), eleito para primeiro mandato, pode estar colhendo resultados de políticas de médio prazo.


3. Queimada Nova: Crescimento econômico em busca de impacto social (IPS 54,64 — 14º no território e 198º no Piauí) 

 

Queimada Nova, que em 2021 foi destaque estadual por registrar o maior crescimento do PIB no Piauí, possui hoje um IPS de 54,64 (5033º no Brasil). Com 8.738 habitantes, o município é gerido pelo prefeito Gilmar (PSD), reeleito com 61,61% dos votos. O VA ICMS de 2022 foi de R$ 296.090.900,76, consolidando a cidade como uma força econômica emergente na Chapada Vale do Itaim.

 

VA de R$ 296 milhões, IPS de 54,64. A segunda pior eficiência. Queimada Nova tem VA 2,4× maior que Paulistana, mas IPS inferior. A riqueza está presente — 0,16% de esgoto tratado indica que ela não chega à infraestrutura básica.

 

Apesar do dinamismo econômico, o progresso social caminha em passos mais lentos. A análise dos dados sugere que o município ainda luta para superar deficiências históricas em Fundamentos do Bem-Estar, como a qualidade do meio ambiente e o acesso ao conhecimento básico. O desafio para esse segundo mandato de Gilmar é equilibrar a atração de investimentos com políticas públicas que garantam que o crescimento do PIB seja sentido na mesa e na saúde do cidadão queimada-novense.

 

Os dados sugerem que, embora existam desafios, há uma base sobre a qual se pode construir políticas de inclusão e oportunidades, especialmente voltadas para a juventude e o mercado de trabalho. Com uma evolução do IPS 2026 em relação a 2024 mediana (+1,17, ficando em 11º lugar na Chapada Vale do Itaim), seu dado crítico continua sendo o esgotamento sanitário de 0,16% — o pior indicador do território.


 

4. Curral Novo do Piauí: O paradoxo da riqueza e do bem-estar (IPS 54,77 — 13º no território e 197º no Estado)

 5.191 habitantes formam a população deste município que, assim como Betânia, integra a rota dos investimentos em energia limpa na região. Seu IPS de 54,77 está 5,71 pontos abaixo da média do Piauí e 8,63 pontos abaixo da média Brasil. Com uma evolução do IPS 2026 em relação a 2024 de +0,91, a 12ª no território, Curral Novo tem um desafio duplo: reverter indicadores baixos e acelerar um progresso que vinha tímido.

 

O nome "Curral Novo" remete à tradição pecuária que historicamente moldou a ocupação da região — mas a paisagem hoje é cada vez mais marcada por torres eólicas, não por currais. A transformação econômica, no entanto, ainda não chegou aos indicadores sociais.

 

Curral Novo do Piauí apresenta um dos cenários mais complexos do território. Com a menor população entre os cinco analisados, o município detém um VA ICMS impressionante de R$ 361.979.877,82 (base 2022), o que lhe confere o maior índice de participação (1,0712807) deste grupo. Entretanto, essa riqueza contábil não impede que o município registre um IPS de apenas 54,77, situando-se na posição 5010º do Brasil.

 

A eficiência de conversão de Curral Novo do Piauí, é a pior do grupo. A tradução prática: a economia local gera riqueza equivalente a R$ 6,6 milhões para cada ponto de IPS. Em Paulistana, a mesma "unidade" de bem-estar custa R$ 2,8 milhões. Curral Novo precisa de 2,4× mais atividade econômica para produzir o mesmo resultado social.

 

Isso aponta para uma economia concentrada: grandes empreendimentos (exploração de commodities) que geram valor para o ICMS mas empregam pouca gente, distribuem pouca renda e não se traduzem em investimento público em saneamento, saúde ou educação. Não por acaso, Curral Novo tem a menor expectativa de vida do grupo (66,1 anos) e apenas 1,24% de esgotamento sanitário.

 

A gestão está sob o comando de Juninho de Marinalva (MDB), eleito com uma expressiva votação de 99,14% em 2024.

 

A discrepância entre o faturamento econômico e a qualidade de vida em Curral Novo sugere uma baixa eficiência na conversão de recursos fiscais em benefícios sociais diretos. O município é um exemplo claro de como a presença de grandes empreendimentos — como parques eólicos e mineração — gera impostos, mas exige estratégias municipais mais agressivas para que esses recursos melhorem o saneamento básico e o acesso à informação, componentes vitais do IPS que costumam ser deficitários em regiões de rápido crescimento industrial.

 


5. Paulistana:  O polo regional e a pressão da demanda (IPS 55,68 — 12º no território e 184º no Piauí)

 

Paulistana é, de longe, o caso mais emblemático do paradoxo da Chapada Vale do Itaim. com uma população de 21.633 habitantes, é a maior cidade deste grupo e exerce um papel de polo regional para o território. Sob a nova gestão do prefeito Osvaldo da Abelha Branca (MDB), eleito no pleito de 2024, o município apresenta um IPS de 55,68, ocupando a posição 4792º no ranking nacional. Por ser um centro de serviços, Paulistana enfrenta o desafio de atender não apenas sua população, mas também a demanda flutuante de cidades vizinhas, o que pressiona os indicadores de Necessidades Humanas Básicas.

 

A evolução do IPS 2026 em comparação ao ano de 2024 foi de +1,47 pontos, a segunda melhor entre os cinco últimos, e o 9º melhor entre os 16 municípios do território Chapada Vale do Itaim, o que sugere uma trajetória de melhoria nos últimos dois anos — cabendo à gestão dar continuidade.

 

A cidade que mais gera riqueza e concentra serviços na região deveria ser a vitrine do território. Em vez disso, seu IPS está mais próximo do último colocado (Acauã, 53,80 — diferença de 1,88 ponto) do que da média do Piauí (60,48 — diferença de 4,80 pontos). É o caso mais agudo de ineficiência de conversão entre dinamismo econômico e progresso social.

 

No aspecto fiscal, o Valor Adicionado (VA) do ICMS de Paulistana saltou de R$ 79.095.704,55 em 2022 para R$ 153.935.141,24 em 2023, conforme dados do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI). Este crescimento econômico robusto, no entanto, ainda encontra barreiras para se converter em progresso social efetivo. A gestão reeleita possui o desafio de utilizar este incremento de receita para elevar o município acima da média estadual, focando especialmente na infraestrutura urbana e na qualidade dos serviços de saúde primária.

 

Paulistana tem o menor VA entre as maiores economias do grupo (R$ 154 milhões) e o maior IPS (55,68). É o único caso de conversão moderada — a cidade-polo do território consegue transformar atividade econômica em qualidade de vida com mais eficiência.

 

Cada ponto de IPS em Paulistana custa R$ 2,77 milhões em VA — a melhor relação do grupo. Isso sugere uma economia mais diversificada (serviços, comércio, administração pública) e maior capilaridade dos benefícios econômicos.

 


Análise Crítica: O contraste entre riqueza e vida real

Ao analisar o grupo de municípios, emerge um padrão preocupante: a riqueza gerada no território não está sendo convertida em progresso social na mesma velocidade. O comparativo com Gavião Peixoto (SP), que lidera o Brasil com um IPS de 73,10, mostra que a distância a ser percorrida é vasta. Mesmo comparando com a média do Piauí (60,48), todos os cinco municípios estão em patamares inferiores, o que indica que a Chapada Vale do Itaim é uma das zonas de maior vulnerabilidade social do estado.

 

O caso de Curral Novo do Piauí é o mais gritante na análise de correlação fiscal. Com um VA ICMS superior a R$ 360 milhões, o município possui recursos que, em tese, permitiriam uma infraestrutura de primeiro mundo para seus 5 mil habitantes. No entanto, seu IPS é inferior ao de Paulistana, que possui quatro vezes mais habitantes e metade do VA proporcional. Isso demonstra que o volume de dinheiro em caixa não garante, por si só, o bem-estar da população; a eficiência da gestão e a priorização de gastos são os verdadeiros motores do progresso.

 

"A eficiência na conversão de riqueza em progresso social é o maior desafio dos gestores do semiárido. Ter arrecadação recorde sem saneamento básico é um paradoxo que o IPS 2026 expõe com clareza."


 

Caminhos para a Transformação: O Método Gestão de Impacto (MGI)

Para reverter este quadro, as gestões municipais precisam adotar modelos de governança focados em resultados mensuráveis. O Método Gestão de Impacto (MGI) oferece quatro pilares fundamentais para essa transformação:

 

  • Integração de Resultado: É imperativo que as secretarias de Saúde, Educação e Infraestrutura não operem como ilhas. O progresso social em saneamento (infraestrutura) impacta diretamente na redução de doenças hídricas (saúde) e na frequência escolar (educação).

 

  • Escuta Estratégica: As prefeituras devem implementar canais de ouvidoria ativa e consultas públicas para que o orçamento municipal seja direcionado às carências reais apontadas pelo IPS, e não apenas a obras de visibilidade estética.

 

  • Métricas de Impacto: A elaboração do PPA (Plano Plurianual) e da LOA (Lei Orçamentária Anual) deve conter KPIs (indicadores-chave de desempenho) baseados nas dimensões do IPS. Se o município tem baixa pontuação em "Acesso à Água", a meta orçamentária deve ser o aumento percentual de domicílios atendidos.

 

  • Narrativa de Valor: A comunicação institucional deve focar em resultados concretos para o cidadão. Transparência na aplicação dos recursos do VA ICMS ajuda a construir confiança e engajamento social.

 

Mais do que diagnosticar, os dados apontam para um caminho: os cinco municípios precisam de uma gestão orientada a impacto, que converta recursos escassos em resultados mensuráveis. O Método Gestão de Impacto (MGI) propõe três eixos de intervenção:

 

Para Acauã — prioridade: necessidades humanas básicas

Com o menor IPS do território (53,80), o município precisa de um choque de gestão nas áreas de saneamento, saúde básica e segurança alimentar antes de qualquer política de "desenvolvimento econômico" de segundo nível.

 

Para Betânia do Piauí — converter energia em bem-estar

Os parques eólicos geram riqueza, mas não a retêm localmente. O município precisa de mecanismos fiscais e de compensação social que transformem os megawatts em melhorias concretas para a população.

 

Para Queimada Nova — romper o paradoxo da riqueza que não vira esgoto

Queimada Nova é o retrato mais cruel da desconexão entre economia e qualidade de vida no território. Tem o segundo maior VA entre os cinco (R$ 296 milhões) e ostenta o pior indicador de esgotamento sanitário de toda a Chapada Vale do Itaim: 0,16%. Apenas 12,88% da população tem água tratada. A riqueza gerada pelo agronegócio e pela atividade econômica local não está sendo convertida em infraestrutura básica — e o prefeito Gilmar (PSD), reeleito, carrega a responsabilidade direta por esse resultado depois de um mandato completo.

O MGI sugere para Queimada Nova uma gestão de choque na infraestrutura sanitária: criar um plano plurianual vinculado a receitas do ICMS para universalização do esgotamento sanitário, com metas semestrais auditáveis. O município tem folga orçamentária que Acauã não tem — o problema não é a falta de recurso, é a prioridade política. Programas de saúde da família ampliados e incentivos fiscais condicionados à contrapartida social para os grandes geradores de VA podem acelerar a conversão da riqueza em dignidade.

 

Para Curral Novo do Piauí — planejamento de largo prazo

Com nova gestão e orçamento limitado (5.191 habitantes), o foco deve estar em políticas de alto impacto com baixo custo: programas de saúde da família, ampliação da cobertura de saneamento e parcerias para educação profissionalizante.

 

Para Paulistana — romper o paradoxo do polo regional

O caso mais emblemático exige uma revisão profunda da alocação orçamentária. Paulistana concentra serviços, mas não entrega qualidade de vida. É preciso auditoria de impacto social das políticas públicas em curso e redirecionamento de recursos para as áreas com piores indicadores.

 

 


Benchmarking com os líderes do território

Enquanto os cinco piores municípios lutam para superar a barreira dos 56 pontos, o melhor do território — Francisco Macedo (2.985 habitantes, IPS 59,89) — mostra que é possível fazer mais com menos. O menor município da Chapada Vale do Itaim alcança a melhor qualidade de vida da região, superando até mesmo o polo regional Paulistana por mais de 4 pontos.

 

A diferença entre Francisco Macedo (1ª posição) e Acauã (14ª posição) é de 6,09 pontos — uma distância que, dentro de um mesmo território com apenas 16 municípios, expõe desigualdades profundas na capacidade de gestão e na priorização de políticas públicas.

 

Para referência nacional, Gavião Peixoto (SP) alcança 73,10 de IPS — uma diferença de 19,30 pontos para Acauã, o pior do território.


 

Fechamento

Os dados do IPS Brasil 2026 não contam uma história de fracasso — contam uma história de oportunidades não convertidas. A Chapada Vale do Itaim é uma das regiões de maior potencial energético do Piauí, com ventos que geram energia para mais de um milhão de residências e um solo que recebe investimentos bilionários em infraestrutura limpa. Mas esse potencial não chegou às ruas de Acauã, Betânia, Queimada Nova, Curral Novo e Paulistana.

 

O paradoxo é evidente: a região ilumina casas em outras partes do Brasil enquanto sua própria população carece de água tratada, saneamento básico, acesso à saúde de qualidade e oportunidades reais de crescimento.

 

O Método Gestão de Impacto (MGI) propõe exatamente isto: sair do ciclo de diagnóstico para um ciclo de intervenção monitorada, onde cada recurso público é investido com base em evidências e cada política é desenhada para gerar impacto mensurável na vida das pessoas.

 

Para os gestores — reeleitos ou novatos — de Acauã, Betânia do Piauí, Queimada Nova, Curral Novo do Piauí e Paulistana, o recado é direto: os dados estão postos. O próximo IPS Brasil 2027 dirá se o rumo mudou.

 


Nota Editorial: Esta reportagem foi produzida com base nos dados oficiais do IPS Brasil 2026 e na lista atualizada de gestores municipais do Piauí, visando oferecer uma visão técnica e humana sobre o desenvolvimento regional.

Por: Wedson Bezerra Pereira – Analista Sênior em Gestão Pública. Criador do MGI – Método Gestão de Impacto.
Do FAROL MUNICIPAL, em Teresina-PI, 26 de julho de 2026

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