Os cinco municípios com menor qualidade de vida no Território dos Cocais: onde o progresso não chegou
IPS Brasil 2026 revela que cinco municípios do Território de Desenvolvimento Cocais vivem um paradoxo: geram riqueza via ICMS, mas falham em convertê-la em serviços essenciais e oportunidades para a população. As notas variam de 54,79 a 56,53 — todas muito abaixo da média do Piauí (60,48) e do Brasil (63,40).
Vista de Nossa Senhora dos Remédios (Foto: Instagram indica.piaui)
O Território dos Cocais, no Norte do Piauí, reúne 22 municípios com forte vocação agroextrativista — da carnaúba à agricultura familiar — e uma população estimada em mais de 250 mil habitantes. Em 2026, o IPS (Índice de Progresso Social) médio do território ficou em 57,94, abaixo da média estadual (60,48) e nacional (63,40), e muito distante do melhor índice nacional (Gavião Peixoto/SP, com 73,10).
Os dados acendem um alerta: enquanto o estado e o país avançam, uma parcela significativa da população dos Cocais ainda carece de serviços básicos de saneamento, saúde e educação de qualidade. Mas o que os números gerais escondem é um grupo de cinco municípios onde a situação é particularmente grave.
A análise combinada dos dados de IPS, dimensões sociais e Valor Adicionado (VA) do ICMS revela um padrão incômodo: a capacidade de gerar riqueza não está se traduzindo em qualidade de vida para a população.
O retrato dos cinco municípios — de 54,79 a 56,53
1. Nossa Senhora dos Remédios — IPS 54,79
O pior índice do território dos Cocais no IPS 2026. O município fica localizado a 230 km de Teresina. São 8.525 habitantes (Censo 2022) que convivem com um PIB per capita de R$ 13.812 (IBGE, 2023) — acima de várias cidades do grupo, mas que não se reflete no bem-estar. Pelo menos há um fio de esperança: o índice cresceu 1,23 ponto em relação a 2024, um dos melhores avanços entre os cinco. O prefeito Zé Fernando (PSD), reeleito em 2024 com 68,83% dos votos, iniciou seu novo mandato com o desafio de acelerar esse crescimento.
O grande gargalo está nas Oportunidades: 41,78 pontos, puxado por Direitos Individuais (19,70) e Acesso à Educação Superior (20,24) — dois dos piores índices entre todos os municípios analisados. Em Necessidades Básicas (62,98), o destaque negativo é Moradia (60,76), o pior do grupo.
2. Batalha — IPS 55,37
A autointitulada "Capital da Carnaúba" tem 26.300 habitantes (Censo 2022) e gerou um VA ICMS de R$ 38,44 milhões em 2024 — o que representa R$ 1.417 por habitante/ano de valor adicionado declarado. Teve a maior evolução positiva do grupo: +1,63 ponto. O prefeito reeleito Zé Luiz do Frango (PP) comanda o município.
Na dimensão Necessidades Básicas (64,55), o gargalo crítico é Água e Saneamento: 47,96 — o segundo pior do grupo. Na Bem-Estar (57,60), Acesso à Informação e Comunicação (50,16) revela exclusão digital significativa. O pilar Oportunidades (43,94) é o mais crítico, com Acesso à Educação Superior em 24,15 e Direitos Individuais em 31,08.
3. Esperantina — IPS 56,29
O caso mais emblemático do paradoxo. Com 40.970 habitantes (Censo 2022), Esperantina é a maior economia entre os cinco — PIB per capita de R$ 15.399 (IBGE, 2023) e VA ICMS 2024 de R$ 147,996 milhões, o que equivale a R$ 3.465 por habitante/ano — mais que o dobro de Batalha e quase o triplo de Domingos Mourão. Mesmo assim, o IPS caiu 0,74 ponto — a pior evolução do grupo.
A prefeita Ivanária Sampaio (MDB) foi reeleita com esmagadores 86,35% dos votos em 2024. A queda do IPS reverso indica que, apesar da pujança econômica e da aprovação popular, as políticas públicas em curso não estão gerando progresso social mensurável.
Em Oportunidades (43,50), Direitos Individuais despenca para 17,28 — o mais baixo entre todos os cinco municípios e provavelmente um dos piores do estado. Acesso à Educação Superior também é crítico: 26,47.
4. Domingos Mourão — IPS 56,30
O menor município do grupo: 4.075 habitantes (Censo 2022) e VA ICMS 2024 de apenas R$ 7,5 milhões — R$ 1.818 por habitante/ano. Apesar da economia diminuta, o IPS de Domingos Mourão é praticamente igual ao de Esperantina (56,30 contra 56,29), que tem VA 20 vezes maior. A prefeita reeleita Nelda (PT) comanda a cidade.
O dado mais gritante está em Água e Saneamento: 42,14 — o pior índice absoluto entre todas as subdimensões analisadas nos cinco municípios. Significa que mais da metade da população não tem acesso adequado a água tratada e coleta de esgoto. Por outro lado, a cidade tem o melhor índice de Acesso ao Conhecimento Básico (79,45) — quase 80% da população tem educação fundamental — e Segurança Pessoal (81,37), o que sugere uma comunidade pacata e com boa cobertura escolar, mas pouco cuidada no saneamento e nas oportunidades.
Em Oportunidades (41,55), Direitos Individuais (18,15) e Educação Superior (33,50) — esta última a melhor do grupo, mas ainda muito baixa.
O IPS de Domingos Mourão caiu 0,56 ponto em relação a 2024.
5. São José do Divino — IPS 56,53
Com 4.841 habitantes (Censo 2022), o maior IPS do grupo e o único com prefeito novo — Milton Gomes (PP), eleito em 2024 com 67,71% dos votos, quebrando a continuidade política. Evolução de +0,54 ponto.
Tem o melhor índice de Oportunidades (46,49) do grupo, puxado por Inclusão Social (80,02) — o segundo melhor entre os cinco — e Educação Superior (33,70). Mas Direitos Individuais (19,40) é tão crítico quanto nos demais.
Em Bem-Estar (57,80), Qualidade do Meio Ambiente (43,97) é o pior do grupo — sinal de passivos ambientais ou ausência de saneamento ecológico.
O vilão dos pilares: a dimensão Oportunidades desaba nos Cocais
Os dados desagregados disponíveis no site do IPS Brasil revelam um padrão inequívoco: a dimensão Oportunidades é o principal fator de rebaixamento dos cinco municípios. O abismo entre o que esses municípios oferecem em termos de direitos e educação superior e o que seria minimamente aceitável é estarrecedor:
|
Subdimensão |
Nossa Senhora dos Remédios |
Batalha |
Esperantina |
Domingos Mourão |
São José do Divino |
|
Direitos Individuais |
19,70 |
31,08 |
17,28 |
18,15 |
19,40 |
|
Liberdades Individuais |
49,80 |
49,21 |
47,72 |
47,91 |
52,83 |
|
Inclusão Social |
77,39 |
71,33 |
82,53 |
66,65 |
80,02 |
|
Acesso à Educação Superior |
20,24 |
24,15 |
26,47 |
33,50 |
33,70 |
|
Média Oportunidades |
41,78 |
43,94 |
43,50 |
41,55 |
46,49 |
Direitos Individuais mede acesso à justiça, segurança jurídica, garantia de propriedade, documentação civil e direitos políticos. As pontuações entre 17 e 31 revelam fragilidades institucionais profundas nesses municípios, na garantia de cidadania básica. Não é falta de política pública setorial — é falência do contrato social básico.
Acesso à Educação Superior entre 20 e 33 significa que, na prática, a imensa maioria dos jovens desses municípios jamais ingressará no ensino superior. Sem isso, a mobilidade social é bloqueada e o ciclo de baixa renda se perpetua.
Enquanto Inclusão Social tem notas altas (66 a 82), sugerindo baixa discriminação e relativa coesão comunitária, os Direitos Individuais e o Acesso à Educação Superior são alarmantemente baixos. É como se a comunidade fosse coesa, mas os seus governos estivessem ausentes na garantia de direitos básicos e no provimento de oportunidades de formação.
As subdimensões críticas em Necessidades Básicas
Dentro do pilar Necessidades Básicas, o calcanhar de aquiles é Água e Saneamento:
|
Município |
Água e Saneamento |
|
Nossa Senhora dos Remédios |
49,78 |
|
Batalha |
47,96 |
|
Esperantina |
58,58 |
|
Domingos Mourão |
42,14 |
|
São José do Divino |
53,19 |
Domingos Mourão, com 42,14, tem o pior índice. Esperantina, a cidade mais rica do grupo, está longe do ideal com 58,58 — para referência, a média brasileira nessa subdimensão gira em torno de 72. A ausência de tratamento de esgoto e a precariedade do abastecimento de água são fatores estruturais que exigem investimento pesado e coordenado.
A leitura essencial: a ineficiência da conversão nos Cocais
A grande questão que o cruzamento dos dados fiscais com o IPS impõe é: por que municípios que geram mais riqueza por habitante não entregam melhor qualidade de vida?
|
Município |
VA ICMS 2024 |
Pop. 2025 |
VA per capita |
IPS 2026 |
Evolução IPS 2026-2024 |
|
Nossa Senhora dos Remédios |
R$ 8.601.125 |
8.751 hab. |
R$ 983/hab. |
54,79 |
+1,23 |
|
Batalha |
R$ 38.443.370 |
27.129 hab. |
R$ 1.417/hab. |
55,37 |
+1,63 |
|
Domingos Mourão |
R$ 7.506.357 |
4.129 hab. |
R$ 1.818/hab. |
56,30 |
-0,56 |
|
São José do Divino |
R$ 11.450.743 |
5.317 hab. |
R$ 2.154/hab. |
56,53 |
+0,54 |
|
Esperantina |
R$ 147.996.329 |
42.710 hab. |
R$ 3.465/hab. |
56,29 |
-0,74 |
Fontes: TCE-PI (VA ICMS 2024) e IBGE (população estimada 2025)
O ranking que não se alinha
Se VA per capita determinasse qualidade de vida, a ordem do IPS deveria acompanhar a ordem da riqueza. Não é o que os dados mostram:
Ranking por VA per capita (do menor para o maior): 1º Nossa Senhora dos Remédios (R$ 983) → 2º Batalha (R$ 1.417) → 3º Domingos Mourão (R$ 1.818) → 4º São José do Divino (R$ 2.154) → 5º Esperantina (R$ 3.465)
Ranking por IPS (do menor para o maior): 1º Nossa Senhora dos Remédios (54,79) → 2º Batalha (55,37) → 3º Esperantina (56,29) → 4º Domingos Mourão (56,30) → 5º São José do Divino (56,53)
Apenas as duas primeiras posições se alinham. A partir daí, o alinhamento se rompe — e é aí que a história está.
O indicador-síntese: eficiência de conversão
Para medir o quanto cada município converte riqueza em progresso social, criei um indicador simples: pontos de IPS por R$ 1.000 de VA per capita. Quanto maior o número, mais eficiente é a conversão.
|
Município |
VA per capita |
IPS 2026 |
Eficiência (pontos IPS / R$ 1k VA) |
|
Nossa Senhora dos Remédios |
R$ 983 |
54,79 |
55,8 |
|
Batalha |
R$ 1.417 |
55,37 |
39,1 |
|
Domingos Mourão |
R$ 1.818 |
56,30 |
31,0 |
|
São José do Divino |
R$ 2.154 |
56,53 |
26,2 |
|
Esperantina |
R$ 3.465 |
56,29 |
16,2 |
Os números revelam três fenômenos simultâneos:
1. O paradoxo de Nossa Senhora dos Remédios: a mais pobre, a mais eficiente, a pior colocada.
Com VA per capita de apenas R$ 983 — o menor do grupo, menos de um terço da média dos outros quatro — o município entrega o maior índice de eficiência de conversão: 55,8 pontos de IPS por R$ 1.000 de VA. Isso significa que a máquina pública está extraindo o máximo possível de recursos extremamente escassos. O problema é que R$ 983 por habitante/ano é tão pouco que, mesmo com eficiência máxima, o IPS resultante é o pior do grupo (54,79). Não é má gestão — é insuficiência estrutural de recursos. O município precisa de transferências e investimentos externos para sair do fundo do poço.
2. O desperdício de Esperantina: a mais rica, a mais ineficiente, em queda.
O caso mais grave. Esperantina tem VA per capita de R$ 3.465 — 3,5 vezes maior que o segundo colocado (São José do Divino, R$ 2.154) e 3,5 vezes maior que Nossa Senhora dos Remédios (R$ 983). Mesmo assim, seu IPS (56,29) é inferior ao de Domingos Mourão (56,30), que tem quase metade do VA per capita (R$ 1.818).
Sua eficiência de conversão de 16,2 é a pior do grupo — menos de um terço da eficiência de Nossa Senhora dos Remédios. Significa que, para cada ponto de IPS que Esperantina entrega, ela gasta R$ 214 em VA per capita (3.465 / 16,2). Nossa Senhora dos Remédios gasta apenas R$ 18 por ponto (983 / 55,8). Em outras palavras: Esperantina precisa de 12 vezes mais recursos por ponto de IPS do que Nossa Senhora dos Remédios.
E o agravante: enquanto gasta mal, ainda está regredindo (-0,74). A prefeitura de Esperantina tem o maior orçamento do grupo, mas as políticas públicas não estão gerando progresso social — estão gerando retrocesso.
3. A resiliência de Domingos Mourão, sob risco.
Domingos Mourão tem VA per capita de R$ 1.818 (menos da metade de Esperantina) e entrega IPS de 56,30 — superior ao de Esperantina. Sua eficiência de 31,0 é o dobro da de Esperantina. Isso confirma que municípios pequenos, com gestão enxuta, conseguem alocar recursos escassos de forma mais direta — o dinheiro chega mais rápido aos serviços essenciais sem a capilaridade de uma máquina pública maior.
No entanto, o IPS de Domingos Mourão caiu 0,56 ponto entre 2024 e 2026. A resiliência tem limite: com VA per capita estagnado e população declinante (-4,43% entre 2010 e 2022), o modelo de gestão enxuta pode estar se esgotando. A cidade precisa de novos investimentos — especialmente em água e saneamento, onde tem a pior nota do grupo (42,14).
4. São José do Divino: o melhor dos dois mundos, mas ainda longe do ideal.
Com VA per capita de R$ 2.154 (2º maior) e IPS de 56,53 (o maior do grupo), São José do Divino apresenta o melhor equilíbrio entre riqueza e conversão. Sua eficiência de 26,2 é mediana — inferior a Nossa Senhora dos Remédios e Batalha, mas superior a Esperantina. E está em trajetória de melhora (+0,54).
O que diferencia São José do Divino? O prefeito Milton Gomes (PP) é o único gestor novo entre os cinco — tomou posse em 2025, enquanto os outros quatro foram reeleitos. A renovação política pode estar associada a uma gestão mais focada em resultados. Mas o IPS de 56,53 ainda está muito abaixo da média do Piauí (60,48), e os Direitos Individuais (19,40) e Acesso à Educação Superior (33,70) seguem críticos.
A síntese do paradoxo
Os dados contam uma história de três padrões distintos nos Cocais:
- Pobreza com eficiência, mas sem escala (Nossa Senhora dos Remédios, Batalha): fazem muito com pouco, mas o pouco é tão pouco que não basta. Precisam de injeção de recursos externos.
- Riqueza com desperdício e retrocesso (Esperantina): têm recursos de sobra, mas a gestão não os converte em qualidade de vida. O dinheiro existe, mas não chega aonde deveria. A queda do IPS enquanto o VA cresce é o sinal mais claro de ineficiência alocativa.
- Equilíbrio frágil (Domingos Mourão, São José do Divino): conseguem resultados razoáveis com recursos moderados, mas estão em trajetórias opostas — um em recuperação, outro em declínio.
A pergunta que não quer calar: se Esperantina tivesse a eficiência de conversão de Nossa Senhora dos Remédios (55,8), qual seria seu IPS?
O cálculo é simples: R$ 3.465 / 1.000 × 0,558 + ponto de partida... Na verdade, se aplicássemos a mesma relação IPS/VA per capita de Nossa Senhora dos Remédios (54,79 / 0,983 = 55,8), Esperantina deveria ter IPS de 3,465 × 55,8 = 193 — o que é matematicamente impossível numa escala de 0 a 100.
Isso revela a verdade mais importante da análise: a relação entre riqueza e progresso social não é linear. Depois de um certo ponto, dobrar o VA per capita não dobra o IPS — porque os problemas sociais mais complexos (direitos individuais, educação superior, acesso à justiça) exigem investimentos institucionais profundos, que não se resolvem apenas com mais dinheiro em caixa. Esperantina não vai resolver seus 17,28 em Direitos Individuais apenas gastando mais — precisa de reforma institucional e políticas públicas desenhadas para impacto.
E Nossa Senhora dos Remédios não vai sair do 54,79 apenas sendo mais eficiente — precisa que o estado e a União invistam numa base mínima de saneamento, saúde e educação que sua arrecadação de R$ 983 por habitante/ano jamais conseguirá financiar sozinha.
Gestão pública: a continuidade sob suspeita
|
Município |
Prefeito(a) |
Partido |
Situação |
IPS 2026 |
Evolução |
|
Nossa Senhora dos Remédios |
Zé Fernando |
PSD |
Reeleito |
54,79 |
+1,23 |
|
Batalha |
Zé Luiz do Frango |
PP |
Reeleito |
55,37 |
+1,63 |
|
Esperantina |
Ivanária Sampaio |
MDB |
Reeleita |
56,29 |
-0,74 |
|
Domingos Mourão |
Nelda |
PT |
Reeleita |
56,30 |
-0,56 |
|
São José do Divino |
Milton Gomes |
PP |
Novo |
56,53 |
+0,54 |
Quatro dos cinco prefeitos foram reeleitos em 2024. Dois deles — Ivanária Sampaio (Esperantina) e Nelda (Domingos Mourão) — comandam municípios onde o IPS caiu entre 2024 e 2026. A reeleição de ambas com margens expressivas (86,35% e 74,41%) sugere que o eleitor não teve acesso ou não considerou os indicadores de qualidade de vida na hora de votar.
O caso de Esperantina é o mais intrigante: a cidade com a maior economia, o maior orçamento e a maior população entre os cinco é também a que mais regrediu em qualidade de vida.
Em Domingos Mourão, a queda de -0,56 ponto é menos grave numericamente, mas mais preocupante em termos relativos: para uma cidade de 4 mil habitantes com orçamento enxuto, cada décimo de queda representa dezenas de famílias com pior acesso a serviços essenciais.
São José do Divino é a única exceção: a eleição de Milton Gomes (PP) representa renovação. O novo prefeito alcançou o maior IPS do grupo (56,53) e a missão de acelerar o ritmo de melhora, que foi de apenas +0,54 ponto nos dois anos anteriores.
Benchmarking: a média do território e o contraste nacional
Enquanto a média do IPS dos Cocais é de 57,94, os cinco municípios mais críticos — entre 54,79 e 56,53 — estão num agrupamento que o IPS Brasil classifica como "baixo" (abaixo de 60). Para efeito de comparação:
- Média do Piauí: 60,48
- Média do Brasil: 63,40
- Melhor do Brasil (Gavião Peixoto/SP): 73,10
- Média dos Cocais: 57,94
- Pior do grupo (Nossa Senhora dos Remédios): 54,79
Há uma diferença de 18,31 pontos entre Gavião Peixoto e Nossa Senhora dos Remédios — um abismo de progresso social que equivale a décadas de desenvolvimento.
Dentro do próprio território, a diferença entre os cinco piores (média de ~55,9) e a média do Cocais (57,94) é de 2 pontos — mas isso significa que há municípios no território puxando a média para cima, enquanto estes cinco ficam para trás.
Caminhos: o que os números mandam fazer
A análise combinada de VA, dimensões e evolução temporal sugere prioridades claras para cada município:
- Para todos: saneamento básico e água. A subdimensão Água e Saneamento varia de 42,14 (Domingos Mourão) a 58,58 (Esperantina). Nenhum dos cinco chega perto do mínimo aceitável. É a intervenção de maior retorno social.
- Para todos: acesso à justiça e direitos individuais. As notas entre 17 e 31 em Direitos Individuais indicam ausência do Estado na garantia de cidadania básica. Isso exige políticas de assistência jurídica, registro civil, participação política e segurança jurídica.
- Para Esperantina: auditoria de eficiência do gasto público. Com o maior VA per capita e a maior queda do IPS, a cidade precisa urgentemente revisar onde está aplicando seus recursos. O Método Gestão de Impacto (MGI) propõe exatamente isso: desenhar, executar e avaliar cada política pública com base no impacto real sobre a vida das pessoas.
- Para Domingos Mourão: intervenção emergencial em saneamento. O índice de 42,14 é crítico. Uma cidade de 4 mil habitantes pode resolver seu passivo de saneamento com investimento relativamente baixo se houver vontade política e técnica.
- Para todos: expansão do acesso à educação superior. Com notas entre 20 e 33, os jovens desses municípios estão excluídos do ensino superior. Polos de educação a distância, programas de bolsas e parcerias com universidades públicas são caminhos viáveis.
Fecho
Os dados do IPS Brasil 2026 não são uma sentença. São um diagnóstico preciso de onde cada município precisa investir para melhorar a vida da sua população.
O que os números dos Cocais revelam, no entanto, é um padrão que deveria incomodar gestores, lideranças políticas e a sociedade civil: a riqueza gerada no território não está se convertendo em qualidade de vida. Esperantina fatura R$ 148 milhões de VA ICMS, mas seu IPS caiu. Domingos Mourão tem menos recursos, mas consegue resultados próximos — e ainda assim insuficientes.
Quatro dos cinco prefeitos foram reeleitos. Agora, com o IPS 2026 em mãos, não há mais desculpa para não saber onde os resultados estão faltando. A pergunta que fica aos gestores é: diante desses números, o que cada um vai fazer de diferente?
A população dos Cocais — que confiou nas urnas — tem o direito de cobrar a resposta.
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