Os 21 municípios com a melhor qualidade de vida do Piauí, segundo o IPS Brasil 2026
Olho D'Água do Piauí assume a liderança estadual; Vale do Rio Guaribas e Entre-Rios dominam o Top 21 com cinco cidades cada, e Geminiano registra a maior evolução do estado.
O ranking geral do IPS Brasil 2026 reservou uma surpresa na liderança. Quem assume o primeiro lugar entre os 224 municípios piauienses não é a capital, nem um grande polo regional, mas Olho D'Água do Piauí, pequeno município do território Entre-Rios, com IPS de 66,06 — o mais alto do estado. A cidade não apenas chegou ao topo como registrou evolução sólida de +3,45 pontos em relação a 2024, comprovando que a liderança não é acidental.
Logo atrás, Teresina (IPS 66,02) ostenta o segundo maior índice do estado. Mas a capital carrega uma sombra: foi o único município do Top 21 a registrar evolução negativa (). Em 2024, Teresina tinha IPS de 67,37 — o mais alto do Piauí. Dois anos depois, ainda no topo, a trajetória acende um sinal de alerta que a gestão municipal não pode ignorar.
Fechando o pódio, Picos (IPS 65,01), principal polo do Vale do Rio Guaribas, mantém-se firme na terceira posição com evolução positiva de +1,84 ponto.
1. A disputa entre dois territórios
A distribuição geográfica dos 21 primeiros colocados revela um empate no topo: Vale do Rio Guaribas e Entre-Rios colocam cinco municípios cada na lista da elite estadual. As semelhanças param por aí — as dinâmicas regionais são profundamente distintas.
O Vale do Rio Guaribas ostenta cinco representantes espalhados pelo território: Picos (3º), Sussuapara (4º), Dom Expedito Lopes (9º), Francisco Santos (10º) e São Julião (15º). É uma capilaridade impressionante — não se trata de uma capital puxando a média, mas de um conjunto de cidades médias e pequenas que encontraram, cada uma a seu modo, caminhos para o progresso social. O território parece ter desenvolvido um ecossistema de gestão favorável ao bem-estar.
O Entre-Rios, por sua vez, tem perfil diferente. Seus cinco representantes são Olho D'Água do Piauí (1º), Teresina (2º), Santo Antônio dos Milagres (13º), Demerval Lobão (16º) e São Gonçalo do Piauí (20º). O desempenho é puxado pela região metropolitana da capital — o que é meritório, mas obedece a uma lógica distinta da capilaridade interiorana do Vale do Rio Guaribas. São dois modelos de desenvolvimento em ação.
Na sequência, Carnaubais contribui com quatro municípios: Juazeiro do Piauí (6º), Cocal de Telha (11º), Nossa Senhora de Nazaré (14º) e Boa Hora (21º). O Vale do Sambito também aparece com três: São Félix do Piauí (5º), Elesbão Veloso (7º) e Prata do Piauí (19º).
2. Vinte e um municípios com melhor qualidade de vida no Piauí
|
Pos. |
Município |
Território |
IPS 2026 |
Evolução 2024-2026 |
|
1º |
Olho D'Água do Piauí |
Entre-Rios |
66,06 |
+3,45 |
|
2º |
Teresina |
Entre-Rios |
66,02 |
−1,35 |
|
3º |
Picos |
Vale do Rio Guaribas |
65,01 |
+1,84 |
|
4º |
Sussuapara |
Vale do Rio Guaribas |
64,39 |
+4,95 |
|
5º |
São Félix do Piauí |
Vale do Sambito |
64,19 |
+0,25 |
|
6º |
Juazeiro do Piauí |
Carnaubais |
63,50 |
+3,92 |
|
7º |
Elesbão Veloso |
Vale do Sambito |
63,18 |
+2,92 |
|
8º |
Tanque do Piauí |
Vale do Canindé |
63,05 |
+4,94 |
|
9º |
Dom Expedito Lopes |
Vale do Rio Guaribas |
63,05 |
+2,60 |
|
10º |
Francisco Santos |
Vale do Rio Guaribas |
62,98 |
+6,18 |
|
11º |
Cocal de Telha |
Carnaubais |
62,90 |
+2,40 |
|
12º |
Cocal dos Alves |
Planície Litorânea |
62,78 |
+0,01 |
|
13º |
Santo Antônio dos Milagres |
Entre-Rios |
62,77 |
+3,92 |
|
14º |
Nossa Senhora de Nazaré |
Carnaubais |
62,75 |
+6,78 |
|
15º |
São Julião |
Vale do Rio Guaribas |
62,59 |
+1,94 |
|
16º |
Demerval Lobão |
Entre-Rios |
62,48 |
+4,58 |
|
17º |
Cajazeiras do Piauí |
Vale do Canindé |
62,37 |
+4,83 |
|
18º |
Pedro Laurentino |
Vales dos Rios Piauí e Itaueira |
62,33 |
+4,44 |
|
19º |
Prata do Piauí |
Vale do Sambito |
62,28 |
+0,97 |
|
20º |
São Gonçalo do Piauí |
Entre-Rios |
61,91 |
+1,39 |
|
21º |
Boa Hora |
Carnaubais |
61,91 |
+4,59 |
Nota sobre a 20ª posição: São Gonçalo do Piauí e Boa Hora (Carnaubais) registraram o mesmo IPS de 61,91 — um empate técnico. A classificação oficial adota critérios de desempate que posicionam São Gonçalo à frente.
3. Três narrativas que merecem atenção
A primeira é a aceleração de cidades de pequeno porte. Nossa Senhora de Nazaré (+6,78), Francisco Santos (+6,18) e Sussuapara (+4,95) são exemplos de municípios que, partindo de bases modestas — entre 55 e 59 pontos em 2024 — romperam a barreira dos 62 pontos em apenas dois anos. Em uma escala de 0 a 100, evoluções dessa magnitude representam mudanças estruturais reais.
Orla do açude de Nossa Senhora de Nazaré do Piauí (Foto: https://www.campomaioremfoco.com.br/)
A Nossa Senhora de Nazaré cabe um registro à parte: com +6,78 pontos, registrou a segunda maior evolução de todo o estado do Piauí, atrás apenas de Geminiano, no território do Vale do Rio Guaribas, que cresceu +6,92 pontos — a maior variação absoluta do estado. Em 2024, Nossa Senhora de Nazaré tinha IPS de 55,97. Dois anos depois, saltou para 62,75. Já Geminiano partiu de 53,11 em 2024 e alcançou 60,03 em 2026. São duas trajetórias que colocam esses municípios no mapa do progresso social piauiense como cases a serem estudados: ambas romperam a barreira dos 60 pontos partindo de bases consideravelmente mais modestas que a média, e o fizeram em velocidade incomum para a escala de 0 a 100 do IPS.
A segunda narrativa é o contraste entre estabilidade e declínio. Enquanto Cocal dos Alves (evolução de +0,01) e São Félix do Piauí (+0,25) se mantêm no topo praticamente estagnados, Teresina registrou queda real — de 67,37 para 66,02. Manter-se sem avançar já é arriscado; recuar é um sinal que a gestão pública não pode ignorar.
A terceira é o duelo entre modelos territoriais. O Vale do Rio Guaribas exibe capilaridade: cinco cidades interioranas, cada uma com sua história, todas no Top 21, sendo quatro delas no Top10. O Entre-Rios mostra concentração metropolitana: quatro de seus cinco representantes orbitam a capital. Qual modelo é mais sustentável a longo prazo? Os próximos ciclos do IPS dirão.
4. O que os números dizem — e o que silenciam
O IPS Brasil 2026 revela um Piauí em movimento. Das 21 cidades com melhor qualidade de vida, 20 registraram evolução positiva. Apenas uma recuou. A média geral do estado subiu.
Mas o ranking também expõe desigualdades regionais. Territórios como Chapada das Mangabeiras e Tabuleiros do Alto Parnaíba — alguns com pujança econômica considerável — ainda lutam para colocar seus municípios no pelotão de frente. O agronegócio produz riqueza, mas ela ainda não se converteu em progresso social pleno nessas regiões.
Para os gestores dos 21 municípios do topo, o recado é duplo: celebrar o avanço é justo, mas acomodar-se é um risco. O IPS não perdoa a estagnação. E, como Teresina demonstra neste ciclo, quem não avança — mais cedo ou mais tarde — recua.
5. A Autoridade do IPS: O Raio-X do Bem-Estar
Criado originalmente pela organização global sem fins lucrativos Social Progress Imperative, o índice foi adaptado para a realidade brasileira por uma coalizão de peso que inclui o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a Fundação Avina e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia.
Diferente dos indicadores tradicionais que se curvam ao Produto Interno Bruto (PIB), o IPS é uma bússola social rigorosa. Ele ignora o quanto a cidade produz de riqueza financeira e foca exclusivamente no que chega à ponta: o cidadão. A metodologia é baseada em 57 indicadores sociais e ambientais de fontes públicas oficiais. Segundo o IPS Brasil, os dados são reunidos em um índice com pontuação de 0 a 100, e estão estruturados em três dimensões fundamentais e doze componentes:
- Necessidades Humanas Básicas: Nutrição e cuidados médicos básicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal.
- Fundamentos do Bem-estar: Acesso ao conhecimento básico, acesso à informação e comunicação, saúde e bem-estar e qualidade do meio ambiente.
- Oportunidades: Direitos individuais, liberdades individuais e de escolha, inclusão social e acesso à educação superior.
Além disso, o índice avalia fatores como cobertura vacinal, hospitalizações, mortalidade, subnutrição; abastecimento de água e saneamento, moradia, coleta de lixo; homicídios, mortes por acidentes de transporte; evasão no ensino fundamental e médio; cobertura de internet móvel (4G/5G), Internet banda larga fixa; expectativa de vida, mortalidade, obesidade, suicídios; qualidade do meio ambiente, supressão da vegetação primária e secundária; acesso a programas de direitos humanos; acesso à cultura, lazer e esporte; gravidez na adolescência, praças e parques em áreas urbanas; famílias em situação de rua, violência contra mulheres e negros, mulheres empregadas com ensino superior e nota mediana no Enem, dentre outros.
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