O morro que virou município: no extremo sul do Piauí, um prefeito revela por que apoia três candidatos ao Senado e mostra por que sua cidade deixou de ser "ponto final"
Perfurou 134 poços, abriu uma estrada na mata com recursos próprios e dormiu com a equipe no sertão. Agora, o prefeito Josué Alves explica por que decidiu apoiar três candidatos ao Senado quando a urna só aceita dois — e porque sua cidade deixou de ser "ponto final" para virar parâmetro na região.
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No ano de 1890, três portugueses saíram do oeste da Bahia rumo ao sul do Piauí em busca de terras férteis. De longe, avistaram uma formação montanhosa alta e completamente desprovida de vegetação no topo — um morro "descoberto", exposto ao sol, à chuva e ao vento. Por estar com a "cabeça no tempo", como diz a expressão popular brasileira para algo que fica ao relento, os viajantes batizaram o lugar. Nascia ali o nome de um dos municípios mais curiosos da toponímia brasileira: Morro Cabeça no Tempo.
Emancipado em 26 de janeiro de 1994 e desmembrado de Avelino Lopes — com parcelas de terra também associadas a Curimatá —, o município completou 32 anos em 2026. Seu povoamento nasceu no local hoje conhecido como Tanque Velho, situado logo abaixo do morro que deu nome à cidade, para onde os desbravadores foram em busca de água.
Mais de um século depois, a busca por água segue sendo o fio condutor da história local. E seu prefeito, Josué Alves da Silva (PP), reeleito com 72,69% dos votos em 2024, acaba de fazer algo que nenhum outro gestor do Piauí ousou nas eleições de 2026: apoiar três candidatos ao Senado Federal em uma eleição em que cada eleitor só pode votar em dois.
Em conversa exclusiva com o Farol Municipal, numa ligação telefônica de 16 minutos, o prefeito esclareceu ponto a ponto o que o levou a essa decisão — e revelou uma trajetória de gestão que transforma um município antes visto como "ponto final" em parâmetro para a região.
O morro que é maior que países
Morro Cabeça no Tempo tem uma área territorial de 2.207,658 km², segundo dados oficiais do IBGE. Ocupa a 28ª colocação em área dentro do Piauí — um número que impressiona quando comparado a capitais e países.
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Localidade |
Categoria |
Área (aprox.) |
Proporção |
|
Morro Cabeça no Tempo (PI) |
Município foco |
2.207 km² |
Referência |
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São Paulo (SP) |
Maior metrópole do Brasil |
1.521 km² |
Morro é 1,4x maior |
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Rio de Janeiro (RJ) |
Grande metrópole nacional |
1.200 km² |
Morro é 1,8x maior |
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Teresina (PI) |
Capital estadual |
1.392 km² |
Morro é 1,5x maior |
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Luxemburgo |
País (Europa) |
2.586 km² |
Praticamente igual |
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Maurício |
País (África/Ilha) |
2.040 km² |
Morro é maior que o país |
O território morrense conseguiria abrigar toda a cidade de São Paulo e ainda restariam quase 700 km² de terras livres. É quase duas vezes maior que o município do Rio de Janeiro e consideravelmente maior que a própria capital do estado, Teresina. Se fosse um país independente, seria maior que nações soberanas como as Ilhas Maurício, Bahrein, Singapura ou Malta.
Mas a população é de apenas 4.377 habitantes (Censo 2022), com estimativa de 4.456 para 2025 — o que resulta numa densidade demográfica de 1,98 hab/km². Menos de duas pessoas por quilômetro quadrado. É como se cada morrense ocupasse, em média, um espaço do tamanho de dois campos de futebol.
A distância entre a sede municipal e as localidades mais remotas — povoados próximos às divisas com Bom Jesus e Guaribas, na região da Serra Vermelha, ou na rota que corta o interior rumo a Caracol — fica entre 50 km e 60 km. O município está a 870 km de Teresina.
"Desafio qualquer político do Piauí e até do Brasil"
Em sua conversa com o Farol Municipal, o prefeito Josué Alves não economizou na descrição do que encontrou ao assumir a gestão:
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"Antes quem passava por Morro Cabeça no Tempo não sabia diferenciar o que era interior e o que era cidade, vista a total falta de estrutura que imperava no município antes do nosso governo."
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A frase é dura, mas o prefeito a emparelha com os resultados que diz ter alcançado:
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"Desafio qualquer político do Piauí e até do Brasil de se conseguir as coisas que eu consegui pra uma cidade tida por muitos como irrelevante. Hoje Morro Cabeça no Tempo tem de 60% a 70% de pavimentação asfáltica, só no meu mandato perfuramos 134 poços. A cidade é muito seca. O interior quase todo conseguiu furar poços e fazer linhas adutoras. Quase todas as localidades do município – cerca de 30 – têm água encanada em suas casas. Era 100% com carro-pipa."
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A água, historicamente o maior desafio do município, deixou de ser transportada por carro-pipa em quase todo o território. O prefeito também ressaltou os investimentos em educação, saúde e esporte:
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"Fizemos oito quadras de esportes – duas delas sendo com gramado sintético – reformamos as escolas do município e climatizamos – fizemos cobertura de quadra, oferecendo mais conforto aos nossos alunos."
Quadra poliesportiva na localidade Cruz (Imagem: Instagram @prefeito_josuealves
Sobre a saúde, descreveu o quadro com franqueza:
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"Nós não temos um hospital, mas ninguém me procura pra essa questão de transporte ou ação na saúde, porque a Secretaria de Saúde resolve tudo. E antes era um caos."
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A frota da Saúde inclui duas ambulâncias em uso (são quatro, mas as duas mais antigas estão com problemas e sem uso), quatro Mobi, duas vans e uma Toro. "Nós temos duas ambulâncias", corrigiu o prefeito, sem esconder as limitações, mas destacando que a Secretaria resolve as demandas sem que o cidadão precise procurá-lo diretamente.
A estrada que mudou o extremo sul do Piauí
O trecho mais revelador da conversa veio quando o prefeito contou como abriu, com recursos próprios da Prefeitura, uma estrada que conectou Morro Cabeça no Tempo à BR-235 — reduzindo de doze horas para cinquenta minutos o trajeto até o município de Guaribas:
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"Ainda fiz um fato extraordinário, que eu acho que ninguém no Brasil conseguiu fazer. Peguei uma cidade que era isolada, e descobri que tinha uma rota que poderia desenvolver todo o extremo sul do Piauí. Eu contratei um topógrafo, peguei um drone, fiz todo o levantamento, toda topografia, percebi que era possível; aluguei um trator de esteira, peguei a minha equipe e eu mesmo coordenei dentro da mata, passamos 45 dias sem entrar e nem sair; eu ia todo dia, e às vezes dormia com eles na mata."
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Print do Instagram do prefeito Josué Alves, em trecho da nova estrada, aberta com recursos próprios do município
Antes da estrada, para chegar em Guaribas pelo asfalto, eram dez a doze horas — indo por Corrente, Canto do Buriti, São Raimundo Nonato e Caracol. Hoje, pela rota aberta pela Prefeitura, o trajeto é feito em 40 a 50 minutos de carro pequeno, numa estrada de chão por onde passam 30 a 40 veículos por dia, incluindo caminhões com carga pesada.
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"No dia que fizer o asfalto, vai mudar ainda mais e intensificar o tráfego por essa rota, o que trará mais riqueza e desenvolvimento para a região. Quando vou a Teresina, sempre pego essa rota e economizo quase R$ 300,00 de combustível trafegando por ela, mesmo sendo ainda de chão."
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Quem acompanha o prefeito nas redes sociais vê essa rotina de perto. Josué publica imagens de estradas abertas, poços perfurados, quadras inauguradas e escolas reformadas. Em um município de 4.456 habitantes, onde quase todos se conhecem, essa transparência tem peso diferente do que teria em uma grande capital: o eleitor que vê a obra no celular é o mesmo que passa em frente dela no dia seguinte.
O prefeito afirma já ter solicitado aos deputados que ele apoia e ao governador do Piauí, Rafael Fonteles, a melhoria e terraplanagem da estrada. Já o asfalto, quando vier, deve transformar a rota em um corredor logístico para o extremo sul piauiense.
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"Eu pesei o apoio pela quantidade de recursos que a pessoa colocou na cidade"
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Foi dessa trajetória de obras e busca por recursos que nasceu, segundo o prefeito, a decisão de apoiar três candidatos ao Senado. Na zona rural, orienta votos para os senadores Ciro Nogueira (PP) e Marcelo Castro (MDB). Na zona urbana, para Júlio César (PSD) e Ciro Nogueira — a unanimidade que sustenta a estratégia.
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"Daí eu pesei o apoio pela quantidade de recursos que a pessoa colocou na cidade. Não é uma questão momentânea, é uma questão de princípios; o que eu sempre falo pra população é: veja o que fizemos pelo Morro, agora se você não vê, não me acompanhe não; se você vê, pense se está bom ou se quer mudar; o voto é livre e você vota em quem você quer."
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E completou:
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"Hoje tenho a liberdade de apresentar as pessoas que ajudaram o município. O voto é livre. Agora, nada mais justo do que dizer a toda população quem foi que ajudou o município, trazendo obras que beneficiam e melhoram a qualidade de vida de nossas comunidades e de todo o município."
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Os dados das emendas federais confirmam a tese do prefeito. Segundo levantamento do Farol Municipal com dados do Portal da Transparência, Morro Cabeça no Tempo recebeu R$ 4.401.406,00 em emendas federais no biênio 2025-2026. Considerando a população estimada de 4.456 habitantes, isso equivale a R$ 987,75 per capita — valor que coloca o município na 147ª posição entre os 224 municípios piauienses em volume proporcional de emendas. Não é o topo do ranking, mas é um número expressivo para um município onde 94,67% da receita provém de transferências governamentais.
Os números que contam a história
Morro Cabeça no Tempo convive com um contraste que define sua trajetória. O PIB per capita é de R$ 12.180,55 (2023), e o IDHM é de 0,542 (faixa "baixo", Censo 2010).
Em 2026, o Índice de Progresso Social (IPS) colocou o município na incômoda 224ª posição entre os 224 municípios do Piauí, com 50,27 pontos. Mas há uma evolução significativa: 2,36 pontos em dois anos, colocando a cidade em 11º lugar entre os 24 municípios de seu território, a Chapada das Mangabeiras. A continuar no ritmo da atual gestão, logo Morro Cabeça no Tempo poderá celebrar conquistas ainda maiores.
O número que escapa da lanterna é a educação. Os resultados do IDEB mostram que Morro Cabeça no Tempo está avançando: nos Anos Iniciais do ensino fundamental, o município registrou um crescimento de 55,6%, saindo de 3,6 para 5,6. Nos Anos Finais, o salto foi de 20,5%, passando de 3,9 para 4,7.
O prefeito atribuiu o resultado ao trabalho coletivo:
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"Esses números representam muito mais do que índices; representam o esforço, a dedicação e o compromisso com o futuro das nossas crianças e jovens."
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E agradeceu, de coração, à Secretaria Municipal de Educação, aos gestores escolares, coordenadores, professores, servidores, alunos, pais e responsáveis:
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"Cada um contribuiu para que esse resultado se tornasse realidade."
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O primo pobre que virou parâmetro
O prefeito não esconde a satisfação com a mudança de percepção sobre o município:
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"Uma cidade em que os vizinhos (Avelino Lopes, Curimatá, Parnaguá) falavam que era sinônimo de retrocesso, que não tinha nada, que não ia pra frente; ninguém queria saber do Morro, porque era um ponto final, era o primo pobre da região. Hoje o Morro tem uma administração e uma cidade invejável, que vem servindo como parâmetro para a região, porque encarou de frente os problemas; eu não quis saber de espectro político, eu fui atrás de organizar a minha cidade."
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E arrematou, desafiando quem duvida:
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"Desafio que alguém diga que tem alguma localidade no Morro que eu não tenha feito nada, que não furou um poço, que não colocou uma adutora, uma estrada, uma quadra, não reformou um colégio ou climatizou o colégio. Eu vou de peito aberto a cerca de 30 localidades, porque em todas elas têm alguma obra de nossa gestão, de grande ou pequeno porte."
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A presença de Josué Alves nas redes sociais e nas comunidades não é eventual — é sistemática. O perfil do prefeito no Instagram, @prefeito_josuealves, funciona como um canal direto de comunicação com a população, onde divulga obras, presta contas e dialoga com os moradores. Em uma cidade onde a distância entre a sede e as localidades mais remotas pode chegar a 60 km por estradas vicinais, essa proximidade digital se soma à presença física: o prefeito diz percorrer "de peito aberto as cerca de 30 localidades do município", e em todas elas há alguma obra de sua gestão. O diálogo com a população, segundo ele, não é estratégia de marketing — é a própria forma de governar.
A engenhosidade que vem do sertão
A decisão de apoiar três candidatos ao Senado, vista à luz da conversa com o prefeito Josué Alves, deixa de ser uma curiosidade eleitoral e revela-se como uma extensão natural de uma forma de governar. O prefeito que abriu uma estrada na mata com recursos próprios, que perfurou 134 poços num município onde antes tudo era carro-pipa, que reformou escolas e climatizou quadras — esse mesmo prefeito olhou para a urna e fez o que nenhum outro fez: dividiu o território em duas zonas e distribuiu apoios para maximizar canais com Brasília.
Não é artilharia política pelo prazer da manobra. É a leitura de quem governa um município com extensão maior que Luxemburgo e população menor que a de um bairro de Teresina. Um lugar onde a distância até a localidade mais remota pode chegar a 60 km por estradas vicinais — e onde cada emenda parlamentar pode significar a diferença entre ter ou não ter água encanada.
O prefeito que atende o telefone, responde a 16 minutos de perguntas de um repórter desconhecido, publica obras no Instagram e dorme na mata com sua equipe para abrir uma estrada, não se encaixa no estereótipo do gestor isolado no gabinete. Josué Alves é, antes de tudo, um prefeito presente — presente na rede, presente na comunidade, presente nas 30 localidades que diz visitar de peito aberto. E talvez seja essa presença, mais do que qualquer estratégia eleitoral, que explica os 72,69% dos votos que recebeu em 2024 e a confiança com que orienta seus eleitores a votar em três candidatos ao Senado.
Em 4 de outubro, os 4.217 eleitores de Morro Cabeça no Tempo irão às urnas. E qualquer que seja o resultado, o nome deste município de nome curioso e história de resistência ficará associado a uma ideia que os três portugueses de 1890 já sabiam: quando o morro está exposto ao tempo, a única forma de sobreviver é buscar água — por todos os caminhos possíveis.
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Fontes consultadas: IBGE Cidades; TSE (Divulgação de Candidaturas e Contas); Portal da Transparência da Prefeitura de Morro Cabeça no Tempo; TCE-PI; IPS Brasil 2026; QEDU (dados educacionais); portal G1; portal GP1; site da Prefeitura de Morro Cabeça no Tempo; Instagram @prefeito_josuealves; A reportagem agradece ao prefeito Josué Alves pela disponibilidade em conceder a entrevista exclusiva ao Farol Municipal.
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