CHAPADA DAS MANGABEIRAS

O agro que produz riqueza e a lacuna social que ainda desafia as gestões

No sul do Piauí, o agronegócio move a economia, mas o progresso social das cidades da região ainda caminha abaixo da média estadual — um contraste que cobra respostas dos gestores públicos.

25 de julho de 2026 às 20:48 24 visualizações

Produção soja Cerrado Piauí safra grãos 2025 

Foto: Imagem de Internet (Aprosoja-PI/Divulgação)

O território da Chapada das Mangabeiras é, no imaginário econômico piauiense, sinônimo de pujança, e é conhecido nacionalmente pela força do agronegócio. São terras que abrigam uma das fronteiras agrícolas mais dinâmicas do estado, com produção expressiva de grãos, logística em expansão e indicadores de arrecadação que fazem inveja a regiões historicamente mais consolidadas. No entanto, quando a lente se desloca do PIB para o bem-estar humano, o retrato muda de tom e ganha nuances importantes.

 

A média do IPS (Índice de Progresso Social) — índice internacional que mede a qualidade de vida a partir de indicadores como saúde, educação, saneamento e oportunidades — no território da Chapada das Mangabeiras em 2026 é de 55,66 pontos. Isso significa que, como conjunto, a região ainda está na faixa de "em desenvolvimento", quase 5 pontos abaixo da média estadual. Em uma escala de 0 a 100, a diferença pode não parecer enorme, mas representa lacunas concretas em áreas como saneamento básico, acesso à saúde de qualidade e oportunidades educacionais.

 

Segundo o IPS Brasil 2026, as cidades que lideram o território apresentam desempenho social relevante, mas insuficiente diante do potencial que suas economias sugerem. A média do IPS no Piauí é de 60,48 pontos. Nenhum município da Chapada das Mangabeiras alcançou esse patamar.

 

Os líderes regionais e seus contrastes

Bom Jesus é a principal referência do território. Com IPS de 60,36, a cidade ocupa a liderança isolada do território e a 56ª posição no ranking estadual. O índice está a apenas 0,12 ponto da média do Piauí — uma distância tecnicamente pequena, mas que ainda separa o município do pelotão de excelência. A boa notícia é que Bom Jesus registrou a maior evolução do território: impressionantes +5,89 pontos em relação a 2024, um dos melhores desempenhos de todo o estado. Isso indica que a gestão municipal está, ao menos, na direção correta.

 

Na segunda posição territorial, Manoel Emídio (IPS 59,67) apresenta indicadores robustos, com evolução de +3,89 pontos. Ainda na faixa dos 50 pontos, mas muito próxima da barreira dos 60 — um pequeno esforço adicional poderia colocá-la no patamar de "bom desempenho" já no próximo ciclo.

 

Em terceiro lugar, Redenção do Gurguéia (IPS 59,22) surpreende pela velocidade do avanço: uma evolução de +5,41 pontos no biênio, a segunda maior do território, o que sugere que o motor econômico local começa a gerar tração social. O índice de 2024 era de apenas 53,81 — em dois anos, a cidade subiu mais de 5 pontos na escala de 0 a 100, o que, em termos de progresso social, é um salto considerável.

 

Completam o top 5 Eliseu Martins (IPS 58,86) e Colônia do Gurguéia (IPS 58,53), ambos mantêm solidez com evoluções positivas, embora com ritmos de evolução mais modestos (+1,42 e +2,78, respectivamente).

 

Agro forte, social incompleto

O que essas cinco cidades têm em comum? Todas se beneficiam direta ou indiretamente do agronegócio de alta produtividade que caracteriza o Sul do Piauí. Bom Jesus, em especial, é polo de serviços e escoamento da produção da região. Há receita, há arrecadação, há dinamismo econômico.

 

Onde está, então, o gargalo? O IPS Brasil não mede produtividade agrícola nem movimentação financeira. Ele mede se a população tem acesso a água tratada, a coleta de esgoto, a escolas de qualidade, a atendimento médico digno. Mede se as oportunidades chegam a todos, não apenas a quem está inserido na cadeia produtiva do agro.

 

É nesse ponto que o contraste se revela. A escala de 0 a 100 é implacável: não adianta ter o PIB mais alto do estado se a saúde pública não alcança todos os bairros ou se o saneamento básico ainda é privilégio de poucos. O dado que mais salta aos olhos é que todos os municípios do território estão abaixo da média estadual de 60,48. Territórios com menor pujança econômica, como o Vale do Canindé, apresentaram médias de evolução superiores e conseguiram colocar mais municípios acima da média. A Chapada das Mangabeiras, mesmo com sua vantagem econômica, ainda não converteu plenamente essa vantagem em progresso social.

 

O recado do IPS às gestões municipais

Os números não deixam margem para acomodação. O fato de que todos os municípios do território estão abaixo da média estadual é um sinal de alerta que deve ser levado a sério por prefeitos, secretários e equipes técnicas.

 

O agronegócio é um ativo estratégico, mas não substitui políticas públicas estruturantes. Uma cidade pode ter a safra mais produtiva do estado e, ainda assim, ter crianças sem acesso a creche, famílias sem saneamento básico e jovens sem perspectiva de formação técnica. A arrecadação que vem do campo precisa chegar à cidade na forma de investimento social. Esse é o nó que a região precisa desatar.

 

A evolução de Bom Jesus, Redenção do Gurguéia e demais municípios mostra que o caminho é possível. Mas o horizonte desejável — o de estar consistentemente acima da média estadual — ainda exige mais ambição, mais planejamento e, acima de tudo, mais execução.

 

O que realmente importa

A Chapada das Mangabeiras tem cacife para ser referência não apenas econômica, mas também social. O potencial está lá, mensurado em receitas, em produção, em logística. O que falta é a decisão política de transformar esse potencial em progresso humano mensurável.

 

O IPS Brasil não é uma sentença, mas um diagnóstico. E, como todo bom diagnóstico, ele aponta o tratamento. De 0 a 100, cada ponto conquistado representa vidas reais sendo melhoradas. E cada ponto que fica para trás representa uma oportunidade que ainda não foi aproveitada. Resta saber se as gestões municipais da região terão a coragem de priorizar o que realmente importa: o bem-estar de quem vive e constrói o Sul do Piauí todos os dias.

 

Município

Índice IPS 2026

Posição no Território

Posição no Piauí

Índice IPS 2024

Índice Evolução 2026 -2024

Posição na Evolução

Bom Jesus

60,36

1

56

54,47

5,89

1

Manoel Emídio

59,67

2

74

55,78

3,89

4

Redenção do Gurguéia

59,22

3

88

53,81

5,41

2

Eliseu Martins

58,86

4

96

57,44

1,42

17

Colônia do Gurguéia

58,53

5

104

55,75

2,78

8

Monte Alegre do Piauí

58,28

6

116

55,68

2,6

9

Alvorada do Gurguéia

57,77

7

128

53,83

3,94

3

Cristino Castro

57,6

8

135

56,78

0,82

19

Curimatá

57,52

9

137

55,43

2,09

13

São Gonçalo do Gurguéia

56,99

10

151

53,57

3,42

5

Santa Luz

56,62

11

164

55,98

0,64

20

Cristalândia do Piauí

55,82

12

181

52,76

3,06

6

Gilbués

55,24

13

190

52,66

2,58

10

Avelino Lopes

55

14

194

53,32

1,68

14

Riacho Frio

54,29

15

203

51,43

2,86

7

Corrente

54,18

16

205

55,15

-0,97

24

Currais

53,62

17

211

51,94

1,68

15

Sebastião Barros

53,61

18

213

51,32

2,29

12

Barreiras do Piauí

53,35

19

215

52,87

0,48

21

Júlio Borges

53,06

20

217

52,68

0,38

22

Parnaguá

52,52

21

220

51,50

1,02

18

Santa Filomena

52,04

22

222

50,38

1,66

16

Palmeira do Piauí

51,31

23

223

50,96

0,35

23

Morro Cabeça no Tempo

50,27

24

224

47,91

2,36

11

MÉDIA

55,66

 

 

 

 

 

FONTE: https://ipsbrasil.org.br/

 

A Autoridade do IPS: O Raio-X do Bem-Estar

Criado originalmente pela organização global sem fins lucrativos Social Progress Imperative, o índice foi adaptado para a realidade brasileira por uma coalizão de peso que inclui o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a Fundação Avina e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia.

 

Diferente dos indicadores tradicionais que se curvam ao Produto Interno Bruto (PIB), o IPS é uma bússola social rigorosa. Ele ignora o quanto a cidade produz de riqueza financeira e foca exclusivamente no que chega à ponta: o cidadão. A metodologia é baseada em 57 indicadores sociais e ambientais de fontes públicas oficiais. Segundo o IPS Brasil, os dados são reunidos em um índice com pontuação de 0 a 100, e estão estruturados em três dimensões fundamentais e doze componentes:

 

  1. Necessidades Humanas Básicas: Nutrição e cuidados médicos básicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal.
  2. Fundamentos do Bem-estar: Acesso ao conhecimento básico, acesso à informação e comunicação, saúde e bem-estar e qualidade do meio ambiente.
  3. Oportunidades: Direitos individuais, liberdades individuais e de escolha, inclusão social e acesso à educação superior.

 

Além disso, o índice avalia fatores como cobertura vacinal, hospitalizações, mortalidade, subnutrição; abastecimento de água e saneamento, moradia, coleta de lixo; homicídios, mortes por acidentes de transporte; evasão no ensino fundamental e médio; cobertura de internet móvel (4G/5G), Internet banda larga fixa; expectativa de vida, mortalidade, obesidade, suicídios;  qualidade do meio ambiente, supressão da vegetação primária e secundária; acesso a programas de direitos humanos; acesso à cultura, lazer e esporte; gravidez na adolescência,  praças e parques em áreas urbanas; famílias em situação de rua, violência contra mulheres e negros, mulheres empregadas com ensino superior e nota mediana no Enem, dentre outros.

 

Por: Wedson Bezerra Pereira – Analista Sênior em Gestão Pública. Criador do MGI – Método Gestão de Impacto.
Do FAROL MUNICIPAL, em Teresina-PI, 25 de julho de 2026

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