O agro que produz riqueza e a lacuna social que ainda desafia as gestões
No sul do Piauí, o agronegócio move a economia, mas o progresso social das cidades da região ainda caminha abaixo da média estadual — um contraste que cobra respostas dos gestores públicos.
Foto: Imagem de Internet (Aprosoja-PI/Divulgação)
O território da Chapada das Mangabeiras é, no imaginário econômico piauiense, sinônimo de pujança, e é conhecido nacionalmente pela força do agronegócio. São terras que abrigam uma das fronteiras agrícolas mais dinâmicas do estado, com produção expressiva de grãos, logística em expansão e indicadores de arrecadação que fazem inveja a regiões historicamente mais consolidadas. No entanto, quando a lente se desloca do PIB para o bem-estar humano, o retrato muda de tom e ganha nuances importantes.
A média do IPS (Índice de Progresso Social) — índice internacional que mede a qualidade de vida a partir de indicadores como saúde, educação, saneamento e oportunidades — no território da Chapada das Mangabeiras em 2026 é de 55,66 pontos. Isso significa que, como conjunto, a região ainda está na faixa de "em desenvolvimento", quase 5 pontos abaixo da média estadual. Em uma escala de 0 a 100, a diferença pode não parecer enorme, mas representa lacunas concretas em áreas como saneamento básico, acesso à saúde de qualidade e oportunidades educacionais.
Segundo o IPS Brasil 2026, as cidades que lideram o território apresentam desempenho social relevante, mas insuficiente diante do potencial que suas economias sugerem. A média do IPS no Piauí é de 60,48 pontos. Nenhum município da Chapada das Mangabeiras alcançou esse patamar.
Os líderes regionais e seus contrastes
Bom Jesus é a principal referência do território. Com IPS de 60,36, a cidade ocupa a liderança isolada do território e a 56ª posição no ranking estadual. O índice está a apenas 0,12 ponto da média do Piauí — uma distância tecnicamente pequena, mas que ainda separa o município do pelotão de excelência. A boa notícia é que Bom Jesus registrou a maior evolução do território: impressionantes +5,89 pontos em relação a 2024, um dos melhores desempenhos de todo o estado. Isso indica que a gestão municipal está, ao menos, na direção correta.
Na segunda posição territorial, Manoel Emídio (IPS 59,67) apresenta indicadores robustos, com evolução de +3,89 pontos. Ainda na faixa dos 50 pontos, mas muito próxima da barreira dos 60 — um pequeno esforço adicional poderia colocá-la no patamar de "bom desempenho" já no próximo ciclo.
Em terceiro lugar, Redenção do Gurguéia (IPS 59,22) surpreende pela velocidade do avanço: uma evolução de +5,41 pontos no biênio, a segunda maior do território, o que sugere que o motor econômico local começa a gerar tração social. O índice de 2024 era de apenas 53,81 — em dois anos, a cidade subiu mais de 5 pontos na escala de 0 a 100, o que, em termos de progresso social, é um salto considerável.
Completam o top 5 Eliseu Martins (IPS 58,86) e Colônia do Gurguéia (IPS 58,53), ambos mantêm solidez com evoluções positivas, embora com ritmos de evolução mais modestos (+1,42 e +2,78, respectivamente).
Agro forte, social incompleto
O que essas cinco cidades têm em comum? Todas se beneficiam direta ou indiretamente do agronegócio de alta produtividade que caracteriza o Sul do Piauí. Bom Jesus, em especial, é polo de serviços e escoamento da produção da região. Há receita, há arrecadação, há dinamismo econômico.
Onde está, então, o gargalo? O IPS Brasil não mede produtividade agrícola nem movimentação financeira. Ele mede se a população tem acesso a água tratada, a coleta de esgoto, a escolas de qualidade, a atendimento médico digno. Mede se as oportunidades chegam a todos, não apenas a quem está inserido na cadeia produtiva do agro.
É nesse ponto que o contraste se revela. A escala de 0 a 100 é implacável: não adianta ter o PIB mais alto do estado se a saúde pública não alcança todos os bairros ou se o saneamento básico ainda é privilégio de poucos. O dado que mais salta aos olhos é que todos os municípios do território estão abaixo da média estadual de 60,48. Territórios com menor pujança econômica, como o Vale do Canindé, apresentaram médias de evolução superiores e conseguiram colocar mais municípios acima da média. A Chapada das Mangabeiras, mesmo com sua vantagem econômica, ainda não converteu plenamente essa vantagem em progresso social.
O recado do IPS às gestões municipais
Os números não deixam margem para acomodação. O fato de que todos os municípios do território estão abaixo da média estadual é um sinal de alerta que deve ser levado a sério por prefeitos, secretários e equipes técnicas.
O agronegócio é um ativo estratégico, mas não substitui políticas públicas estruturantes. Uma cidade pode ter a safra mais produtiva do estado e, ainda assim, ter crianças sem acesso a creche, famílias sem saneamento básico e jovens sem perspectiva de formação técnica. A arrecadação que vem do campo precisa chegar à cidade na forma de investimento social. Esse é o nó que a região precisa desatar.
A evolução de Bom Jesus, Redenção do Gurguéia e demais municípios mostra que o caminho é possível. Mas o horizonte desejável — o de estar consistentemente acima da média estadual — ainda exige mais ambição, mais planejamento e, acima de tudo, mais execução.
O que realmente importa
A Chapada das Mangabeiras tem cacife para ser referência não apenas econômica, mas também social. O potencial está lá, mensurado em receitas, em produção, em logística. O que falta é a decisão política de transformar esse potencial em progresso humano mensurável.
O IPS Brasil não é uma sentença, mas um diagnóstico. E, como todo bom diagnóstico, ele aponta o tratamento. De 0 a 100, cada ponto conquistado representa vidas reais sendo melhoradas. E cada ponto que fica para trás representa uma oportunidade que ainda não foi aproveitada. Resta saber se as gestões municipais da região terão a coragem de priorizar o que realmente importa: o bem-estar de quem vive e constrói o Sul do Piauí todos os dias.
|
Município |
Índice IPS 2026 |
Posição no Território |
Posição no Piauí |
Índice IPS 2024 |
Índice Evolução 2026 -2024 |
Posição na Evolução |
|
Bom Jesus |
60,36 |
1 |
56 |
54,47 |
5,89 |
1 |
|
Manoel Emídio |
59,67 |
2 |
74 |
55,78 |
3,89 |
4 |
|
Redenção do Gurguéia |
59,22 |
3 |
88 |
53,81 |
5,41 |
2 |
|
Eliseu Martins |
58,86 |
4 |
96 |
57,44 |
1,42 |
17 |
|
Colônia do Gurguéia |
58,53 |
5 |
104 |
55,75 |
2,78 |
8 |
|
Monte Alegre do Piauí |
58,28 |
6 |
116 |
55,68 |
2,6 |
9 |
|
Alvorada do Gurguéia |
57,77 |
7 |
128 |
53,83 |
3,94 |
3 |
|
Cristino Castro |
57,6 |
8 |
135 |
56,78 |
0,82 |
19 |
|
Curimatá |
57,52 |
9 |
137 |
55,43 |
2,09 |
13 |
|
São Gonçalo do Gurguéia |
56,99 |
10 |
151 |
53,57 |
3,42 |
5 |
|
Santa Luz |
56,62 |
11 |
164 |
55,98 |
0,64 |
20 |
|
Cristalândia do Piauí |
55,82 |
12 |
181 |
52,76 |
3,06 |
6 |
|
Gilbués |
55,24 |
13 |
190 |
52,66 |
2,58 |
10 |
|
Avelino Lopes |
55 |
14 |
194 |
53,32 |
1,68 |
14 |
|
Riacho Frio |
54,29 |
15 |
203 |
51,43 |
2,86 |
7 |
|
Corrente |
54,18 |
16 |
205 |
55,15 |
-0,97 |
24 |
|
Currais |
53,62 |
17 |
211 |
51,94 |
1,68 |
15 |
|
Sebastião Barros |
53,61 |
18 |
213 |
51,32 |
2,29 |
12 |
|
Barreiras do Piauí |
53,35 |
19 |
215 |
52,87 |
0,48 |
21 |
|
Júlio Borges |
53,06 |
20 |
217 |
52,68 |
0,38 |
22 |
|
Parnaguá |
52,52 |
21 |
220 |
51,50 |
1,02 |
18 |
|
Santa Filomena |
52,04 |
22 |
222 |
50,38 |
1,66 |
16 |
|
Palmeira do Piauí |
51,31 |
23 |
223 |
50,96 |
0,35 |
23 |
|
Morro Cabeça no Tempo |
50,27 |
24 |
224 |
47,91 |
2,36 |
11 |
|
MÉDIA |
55,66 |
|
|
|
|
|
FONTE: https://ipsbrasil.org.br/
A Autoridade do IPS: O Raio-X do Bem-Estar
Criado originalmente pela organização global sem fins lucrativos Social Progress Imperative, o índice foi adaptado para a realidade brasileira por uma coalizão de peso que inclui o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a Fundação Avina e o Centro de Empreendedorismo da Amazônia.
Diferente dos indicadores tradicionais que se curvam ao Produto Interno Bruto (PIB), o IPS é uma bússola social rigorosa. Ele ignora o quanto a cidade produz de riqueza financeira e foca exclusivamente no que chega à ponta: o cidadão. A metodologia é baseada em 57 indicadores sociais e ambientais de fontes públicas oficiais. Segundo o IPS Brasil, os dados são reunidos em um índice com pontuação de 0 a 100, e estão estruturados em três dimensões fundamentais e doze componentes:
- Necessidades Humanas Básicas: Nutrição e cuidados médicos básicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal.
- Fundamentos do Bem-estar: Acesso ao conhecimento básico, acesso à informação e comunicação, saúde e bem-estar e qualidade do meio ambiente.
- Oportunidades: Direitos individuais, liberdades individuais e de escolha, inclusão social e acesso à educação superior.
Além disso, o índice avalia fatores como cobertura vacinal, hospitalizações, mortalidade, subnutrição; abastecimento de água e saneamento, moradia, coleta de lixo; homicídios, mortes por acidentes de transporte; evasão no ensino fundamental e médio; cobertura de internet móvel (4G/5G), Internet banda larga fixa; expectativa de vida, mortalidade, obesidade, suicídios; qualidade do meio ambiente, supressão da vegetação primária e secundária; acesso a programas de direitos humanos; acesso à cultura, lazer e esporte; gravidez na adolescência, praças e parques em áreas urbanas; famílias em situação de rua, violência contra mulheres e negros, mulheres empregadas com ensino superior e nota mediana no Enem, dentre outros.
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