A startup do interior do Piauí que vai brilhar em Lisboa
Uma ideia nascida em sala de aula, no interior do Piauí, vai cruzar o Atlântico para representar o estado no maior palco de tecnologia do mundo.
A startup do interior do Piauí que vai brilhar em Lisboa
Uma ideia nascida em sala de aula, no interior do Piauí, vai cruzar o Atlântico para representar o estado no maior palco de tecnologia do mundo.
A TikTests, startup de consultoria de imagem pessoal com inteligência artificial, conquistou o 1º lugar na seletiva da Missão Empresarial do Piauí para o Web Summit Lisboa 2026 — com a nota 7,5, a maior entre as 11 empresas selecionadas. Entre 9 e 12 de novembro, a delegação piauiense desembarca na capital portuguesa, e a TikTests chega com produto validado, mais de 375 mil usuários em mais de 130 países e dois sócios já baseados em Portugal, porta de entrada do mercado europeu.
À frente dessa história está o professor Aislan Rafael Rodrigues de Sousa, 42 anos, natural de Picos (PI). Graduado em Tecnologia em Informática pelo IFPI, especialista em Banco de Dados e mestre em Engenharia de Software pelo CESAR, Aislan é professor do IFPI desde 2007 — são 19 anos de sala de aula. Atua principalmente nas áreas de Engenharia de Software, desenvolvimento de sistemas, empreendedorismo digital e projetos de inovação. Atualmente é professor do IFPI Campus Teresina e instrutor da Residência Tecnológica InovaTec do IFPI. A TikTests, vale registrar, continua sediada no IFPI Campus Picos, onde nasceu: a mudança foi do vínculo docente, não da empresa.
Para esta entrevista exclusiva para o portal FAROL MUNICIPAL, o professor Aislan respondeu em detalhes — do nascimento da ideia ao sonho de longo prazo, passando pelos bastidores da conquista, os números da startup e a estratégia europeia. Confira a conversa na íntegra.
Professor Aislan Rafael
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Bloco 1 — Origem e perfil
Como nasceu a TikTests? Qual foi o momento exato em que o senhor percebeu que existia um problema esperando por solução?
A TikTests nasceu dentro da Mambee, a Fábrica Escola de Software do IFPI Campus Picos, ambiente onde ideias são transformadas em projetos reais e onde a empresa mantém seu endereço. Ela surgiu da combinação de três coisas: tecnologia, comportamento digital e a vontade de tornar o autoconhecimento mais acessível. A ideia inicial era criar uma espécie de "TikTok dos testes": uma plataforma dinâmica, rápida e envolvente, na qual a pessoa pudesse descobrir coisas sobre si mesma por meio de diferentes experiências. É daí, inclusive, que vem a sonoridade do nome TikTests. Lançamos alguns testes para observar o comportamento do público, e a coloração pessoal se destacou muito acima dos demais. Foi nesse momento que percebemos um problema real esperando por solução: muita gente queria entender melhor a própria imagem, mas a consultoria tradicional era cara ou pouco acessível. Em vez de insistir em uma plataforma genérica, deixamos os usuários mostrarem qual deveria ser o nosso foco.
Como a sala de aula e a pesquisa acadêmica se conectam com a criação de uma startup?
A sala de aula ensina a observar problemas, testar hipóteses e aprender com o erro. A pesquisa acadêmica acrescenta método: você não parte apenas de uma opinião, mas de evidências. Na startup, aplicamos essa mesma lógica em ciclos mais rápidos. Criamos uma hipótese, colocamos o produto nas mãos das pessoas, medimos o uso e melhoramos. Para mim, empreender é também uma forma de educação aplicada: o conhecimento precisa sair do papel e gerar valor para pessoas reais.
Quando começou, o senhor imaginava chegar a um palco como o Web Summit?
Quando começamos, o Web Summit parecia algo muito distante. Agora, esta será a nossa segunda participação no evento. Em 2025, aproveitamos o Web Summit para lançar a versão premium da TikTests e tivemos contato com dois investidores, o que mostrou o valor daquele ambiente para a evolução da empresa. Por isso, voltar em 2026 já estava no nosso radar: queremos retomar e ampliar as conversas com investidores, além de buscar novas parcerias. Conquistar uma vaga era um objetivo para o qual nos preparamos, mas terminar a seletiva em primeiro lugar foi uma surpresa muito positiva e um reconhecimento importante do trabalho da equipe.
Quem são as pessoas por trás da TikTests e o que cada uma trouxe para o projeto?
Somos quatro sócios com competências complementares. Kelvin Campelo é o administrador e líder técnico do produto; Magdiel Campelo atua em engenharia, inteligência artificial e desenvolvimento; eu cuido principalmente da frente institucional, negócios, finanças, editais e relacionamento com o ecossistema; e Aline do Monte conduziu a participação da startup no programa Startup NE. Também contamos com Tainá Costa na área de conteúdo e estratégia. Kelvin e Magdiel moram em Portugal, enquanto a operação institucional permanece fortemente ligada ao Piauí.
Por que "TikTests"? De onde veio o nome e a identidade da marca?
O nome nasceu da proposta inicial de criar o "TikTok dos testes". "Tik" remete à rapidez, ao dinamismo e à experiência envolvente das plataformas de conteúdo curto; "Tests" representa o formato lúdico e exploratório com que começamos. A semelhança sonora é intencional e ajuda a comunicar uma experiência simples e imediata. Com o amadurecimento do produto, o propósito foi além do entretenimento: hoje queremos ajudar cada pessoa a se enxergar com mais nitidez e confiança.
Bloco 2 — O produto e a tecnologia
Qual é o problema central que a TikTests resolve no mercado de consultoria de imagem?
A TikTests torna mais acessível um serviço que, em uma consultoria de imagem tradicional, pode custar entre R$ 300 e R$ 1.500. Na nossa plataforma, o teste é gratuito e a análise premium custa R$ 37,99. A plataforma começa com a análise de coloração pessoal, mas não termina nela. Com o guarda-roupa virtual, o usuário pode fotografar e catalogar as peças que já possui e descobrir quais combinam com sua cartela. Também temos a Tik, nossa assistente de estilo, que usa essas informações para sugerir combinações e ajudar a montar looks. Assim, ajudamos a pessoa a escolher melhor roupas, maquiagem e acessórios, aproveitar mais o próprio guarda-roupa, evitar compras equivocadas e tomar decisões com mais segurança.
Como a IA identifica com precisão o subtom, a temperatura e o contraste da pele a partir de uma única foto?
O processo não é apenas "enviar uma foto para uma IA". Primeiro, o sistema verifica segurança e qualidade da imagem, observando iluminação, filtros, desfoque e obstruções. Depois, um modelo multimodal analisa características como subtom e contraste dentro de um guia estruturado de colorimetria, com saída validada nas 12 cartelas do sistema sazonal. O usuário também pode responder a cinco perguntas de refinamento, o que ajuda a corrigir distorções causadas pela câmera ou pela luz. A resposta final combina análise visual, regras estruturadas e uma base própria de recomendações.
Como funciona a catalogação automática do guarda-roupa? Como a IA reconhece diferentes peças e acessórios?
O usuário fotografa uma peça, e a inteligência artificial identifica características como tipo, categoria, cores e atributos visuais. Depois, o sistema compara as cores da peça com a paleta pessoal do usuário e pode sugerir combinações e looks. Há uma parte de IA, responsável por compreender a imagem e etiquetar a peça, e uma parte determinística, que faz a correspondência de cores com critérios objetivos. O objetivo é transformar o guarda-roupa que a pessoa já possui em algo pesquisável e útil.
Como o senhor garante a precisão técnica da análise de cores feita por foto?
Não prometemos infalibilidade. Trabalhamos para aumentar a consistência com várias camadas: validação da qualidade da foto, análise estruturada nas 12 cartelas, perguntas de refinamento, base própria de cores e recomendações e um conjunto de casos de validação para comparar resultados. Também deixamos claro que a ferramenta é um ponto de partida acessível e não substitui o olhar de um profissional em situações que exigem uma consultoria aprofundada.
O que diferencia a TikTests de outros aplicativos de consultoria de imagem e organização de guarda-roupa?
O diferencial é reunir a jornada em um único produto. A coloração pessoal é a porta de entrada — esse teste é gratuito, não exige cadastro e devolve um resultado visual e compartilhável. A partir daí, quem cria uma conta avança para a análise premium, o guarda-roupa virtual, as sugestões de looks e o Tik, nosso assistente de estilo. São dois momentos diferentes: a descoberta é aberta a qualquer pessoa; a jornada continuada precisa de conta, porque ela guarda o que é seu. O que é mais difícil de copiar não é a tela do teste: é a camada de dados. Cada análise, cada peça cadastrada no guarda-roupa e cada feedback enriquece o perfil daquele usuário — e o guarda-roupa só existe se a própria pessoa cataloga as roupas dela. É um dado que não se compra pronto.
Como a IA democratiza um serviço que tradicionalmente era caro e exclusivo?
Ela reduz drasticamente o custo marginal e permite atender milhares de pessoas sem depender de uma hora de trabalho humano para cada atendimento. O usuário pode começar gratuitamente, em segundos e sem cadastro nenhum: o teste de coloração está aberto para qualquer pessoa. Quem quiser ir além cria uma conta e pode acessar o premium por R$ 37,99 — uma fração do valor de uma consultoria tradicional. Não buscamos substituir os profissionais, mas ampliar a porta de entrada para quem hoje não tem acesso a eles.
A ferramenta também ajuda a consumir moda de forma mais sustentável, valorizando o que já se tem? Como?
Sim. Quando a pessoa entende suas cores e enxerga melhor as combinações possíveis no próprio guarda-roupa, ela reduz compras por impulso e reaproveita peças que estavam esquecidas. O guarda-roupa virtual reforça isso: antes de indicar algo novo, a proposta é ajudar o usuário a descobrir valor no que já possui. Sustentabilidade, nesse caso, começa com menos erro e mais consciência.
Bloco 3 — Tração e números
Como vocês alcançaram 70 mil usuários em um único dia, com 100% de crescimento orgânico? Qual foi a estratégia?
O pico aconteceu de forma espontânea. Uma influenciadora com muitos seguidores descobriu a nossa ferramenta, fez o teste e publicou um vídeo mostrando a experiência. O conteúdo alcançou muita gente e levou cerca de 70 mil usuários ao nosso site em um único dia. Não foi uma campanha contratada nem houve investimento em mídia: foi um crescimento totalmente orgânico. A plataforma estar aberta, sem cadastro e sem pagamento inicial, permitiu que toda aquela curiosidade se transformasse rapidamente em acessos e uso real do produto.
A taxa de conversão de 2,2% da versão gratuita para a paga é considerada boa no mercado. Como ela foi estruturada no lançamento?
O premium foi lançado em novembro de 2025 para uma audiência que já conhecia o valor do teste gratuito. O preço inicial era R$ 20, com uma campanha de lançamento e cupom de 50% divulgado pela mesma influenciadora cujo vídeo tinha impulsionado o teste gratuito — dessa vez como parceira de conteúdo, não mais por acaso. A jornada funcionava porque o usuário recebia valor antes de ver a oferta paga. A conversão de aproximadamente 2,2% mostrou disposição a pagar e validou o modelo, mas ainda é uma fotografia do lançamento, não uma taxa permanente.
O que significa, na prática, ultrapassar 1 milhão de análises de cor?
Eu faria uma precisão nesse número: registramos mais de 1 milhão de interações no módulo de análise de cor. Isso mostra que não estamos falando apenas de uma ideia ou de um protótipo. O produto foi usado em escala real e gerou dados suficientes para revelar padrões de comportamento, pontos de abandono e necessidades de melhoria. Para a equipe, cada interação é uma fonte de aprendizado sobre experiência, tecnologia e demanda.
Quais foram os gargalos técnicos e de atendimento ao receber 100+ clientes premium na primeira semana?
Os principais desafios foram garantir estabilidade no processamento, acompanhar pagamentos, responder dúvidas rapidamente e identificar falhas que, em pequena escala, quase não aparecem. O lançamento mostrou que não bastava ter uma análise funcionando; precisávamos de filas, monitoramento, tentativas automáticas e um atendimento mais organizado. Foi uma prova importante para amadurecer a operação.
Como vocês escalaram a plataforma para mais de 130 países simultaneamente?
Esse alcance não veio de uma implantação país a país. Como o produto é digital, automatizado e self-service, ele pode ser usado de qualquer lugar. A experiência compartilhável atravessou redes e fronteiras, e a arquitetura foi preparada para idiomas e moedas diferentes. Nossa infraestrutura também foi redesenhada para suportar crescimento e hoje roda na AWS, na região de Estocolmo, na Suécia — ou seja, dentro da União Europeia. O mais correto é dizer que alcançamos usuários em mais de 130 países — não que já tenhamos operação comercial estruturada em todos eles.
Bloco 4 — A seletiva e a conquista
Como foi o processo da seletiva da Missão Empresarial do Piauí, do início ao anúncio do resultado?
O processo teve duas etapas. Primeiro veio a análise documental e classificatória, em que a TikTests foi considerada elegível. Depois participamos do evento híbrido no Avexa Hub, com um pitch de até quatro minutos e perguntas da comissão avaliadora. A preparação exigiu transformar uma história longa em uma narrativa objetiva: problema, solução, tração, modelo e internacionalização. O resultado saiu no mesmo dia, ainda durante o evento, depois de todas as apresentações, e a TikTests conquistou o primeiro lugar.
O que a banca avaliou? Qual critério a TikTests dominou para alcançar a nota 7,5, a maior entre as 11?
A banca avaliou cinco critérios, de 10 pontos cada: maturidade do negócio, potencial inovador, potencial de internacionalização e oportunidade de mercado, clareza da apresentação e comunicação internacional. Não atribuo o resultado a um único deles. Acredito que a força esteve na combinação: produto funcionando, mais de 375 mil usuários alcançados, receita, vendas internacionais, dois sócios em Portugal e uma proposta concreta para aproveitar a missão. A média final de 7,5 foi a maior do processo, à frente da segunda colocada, com 7,2. Para mim, o dado mais significativo é outro: na etapa documental a TikTests tinha 4,5, empatada em quinto lugar. A virada veio na apresentação. Isso diz que o que pesou não foi o papel; foram as evidências de execução, ditas em quatro minutos.
Quantas startups disputaram a seletiva ao todo?
O número total de inscritas não foi divulgado pela organização. O que consta nos documentos oficiais é que 20 startups foram classificadas na primeira etapa e convocadas para o pitch, e que 11 foram selecionadas ao final da segunda etapa. Vale registrar, porque está no próprio resultado: a delegação previa até 25 startups e as vagas não foram totalmente preenchidas, então a organização vai reabrir inscrições para completar o grupo. A TikTests ficou em primeiro lugar entre todas as avaliadas.
Professor Aislan na apresentação de pitch desse ano
Em que momento o senhor sentiu que a TikTests poderia vencer?
Eu senti que tínhamos uma chance real quando conseguimos apresentar os números sem perder a história humana do produto. A banca percebeu que a internacionalização não era apenas um plano: já temos receita fora do Brasil, presença da equipe em Portugal e alcance global. Mesmo assim, evitei criar expectativa antes do resultado. Em uma seletiva, você controla a preparação e a apresentação, não a decisão final.
O que essa nota representa para a credibilidade da startup diante de investidores e do mercado?
Ela funciona como uma validação externa. Usuários validam o produto pelo uso; clientes, pela compra; e uma banca qualificada valida a capacidade da empresa de transformar isso em negócio. Para investidores e parceiros, o primeiro lugar reduz a percepção de que somos apenas um projeto experimental e mostra que há maturidade, execução e potencial de internacionalização.
Tainá, Kelvin e professor Aislan
Bloco 5 — Lisboa e a estratégia europeia
Por que Lisboa e o mercado europeu neste momento da empresa?
Porque a Europa já começou a acontecer para a TikTests. Temos vendas internacionais em 16 países além do Brasil, recebemos em euro e Portugal é nosso segundo maior mercado. Além disso, Kelvin e Magdiel moram no país. Lisboa reúne menor barreira linguística, proximidade cultural e acesso ao ecossistema europeu. Não estamos indo para descobrir se existe demanda; queremos organizar e acelerar uma demanda que surgiu organicamente.
Aislan, Magdiel e Tainá
O que a TikTests espera extrair do Web Summit: networking, captação de investimento, parcerias, clientes?
Temos três objetivos: construir parcerias com marcas e varejistas de moda e beleza, encontrar canais de distribuição para o consumidor europeu e conversar com investidores que compreendam o potencial de uma plataforma global de estilo pessoal. Networking é importante, mas queremos sair de Lisboa com próximos passos concretos: reuniões de continuidade, pilotos e acordos em negociação.
Como os dois fundadores já baseados em Portugal ajudam na expansão europeia? Como é a dinâmica de gestão entre Piauí e Portugal?
Kelvin e Magdiel trazem conhecimento técnico, experiência de trabalho em empresas europeias e presença local para reuniões, parceiros e decisões operacionais. No Piauí, eu lidero a articulação institucional, os editais, os eventos e o relacionamento com o ecossistema. A dinâmica distribuída exige comunicação e papéis claros, mas também é uma vantagem: a TikTests mantém suas raízes no Piauí e, ao mesmo tempo, possui uma ponte real com a Europa.
Portugal já é o maior mercado da empresa em receita. Como essa decisão de internacionalização foi tomada?
Aqui eu corrigiria a premissa: Portugal é atualmente o segundo maior mercado da TikTests, depois do Brasil. Mesmo sem uma operação comercial estruturada no país, já recebemos em euro e temos clientes internacionais. A decisão de priorizar Portugal veio dos próprios dados, da proximidade linguística e da presença de dois sócios no país. É uma expansão guiada por sinais reais, não apenas por conveniência.
Como vocês estão se preparando para a missão — pitch, estande, agenda de reuniões?
A preparação tem quatro frentes: aprimorar o pitch e os materiais em inglês; mapear marcas, varejistas, investidores e programas de soft landing; organizar uma agenda de reuniões antes do evento; e deixar as métricas do negócio prontas para conversas mais profundas. Também queremos reativar contatos feitos em 2025, como investidores e parceiros que já demonstraram interesse. O estande precisa ser tratado como espaço comercial, não apenas como vitrine.
Bloco 6 — Ecossistema e parcerias
Qual foi o papel do Sebrae Piauí, do Investe Piauí e do PIT na preparação da startup?
O Sebrae esteve presente em vários momentos da nossa trajetória, por meio do Startup NE, do NEON, de capacitações e da conexão com missões internacionais. O Investe Piauí e o PIT, ao lado do Sebrae, ajudam a criar a ponte entre startups locais e oportunidades que dificilmente seriam acessadas de forma isolada. Na seletiva, essas instituições ofereceram o processo, a visibilidade e a possibilidade concreta de levar empresas piauienses ao maior evento de tecnologia da Europa.
O que representou ter o Avexa Hub como "casa" durante essa jornada?
O Avexa Hub representa um lugar em que a inovação do Piauí deixa de ser abstrata e ganha encontros, apresentações e conexões. Ter esse espaço como ponto de apoio ajudou na preparação e colocou a TikTests em contato com outras pessoas que também estão construindo soluções no estado. Para uma equipe distribuída, ter uma casa no ecossistema cria pertencimento e aproxima oportunidades.
Como o ecossistema de inovação do Piauí influenciou a criação e o desenvolvimento da TikTests?
A TikTests nasceu na Mambee, a Fábrica Escola de Software do IFPI Campus Picos, que foi fundamental para transformar a ideia em uma empresa e continua sendo o nosso endereço. Também fazemos parte do Guaribas Valley, a comunidade de startups do IFPI, que aproxima empreendedores, projetos e oportunidades. Outro apoio muito importante veio do ecossistema de inovação Vale do Mel, que sempre acreditou na TikTests, deu visibilidade ao nosso trabalho e nos conectou a outras iniciativas do estado. A partir dessas raízes, vieram outras conexões com Sebrae, FAPEPI, Startup NE, NEON, ApexBrasil e Web Summit. Cada etapa ajudou a abrir a seguinte. Somos muito gratos ao IFPI, que nos ofereceu espaço, conhecimento, apoio institucional e um ambiente no qual a inovação pode sair da sala de aula e chegar ao mercado. Essa trajetória mostra que uma empresa criada no interior do Piauí pode desenvolver tecnologia para o mundo.
O que o Piauí precisa fortalecer para gerar mais startups com potencial global?
Precisamos de mais continuidade. Há boas iniciativas de formação e seleção, mas as startups também precisam de capital, clientes, acesso a mercados e acompanhamento depois dos programas. É importante aproximar governo, universidades, institutos federais, empresas e investidores; criar mecanismos de compra de inovação; reter talentos; e oferecer caminhos de internacionalização. Ideias existem. O desafio é garantir as condições para que elas amadureçam sem precisar sair do estado.
Bloco 7 — Bastidores e superação
O senhor mencionou "muitos testes, conversas, telas refeitas e decisões difíceis". Qual foi o maior obstáculo superado pela equipe?
O maior obstáculo foi transformar viralização em produto e negócio. Receber milhares de acessos é empolgante, mas também expõe falhas técnicas, dúvidas de posicionamento e a necessidade de monetizar sem destruir a experiência gratuita que trouxe o público. Tivemos de refazer telas, reescrever a plataforma e dizer "não" a várias ideias para concentrar energia no que os usuários realmente valorizavam.
Houve um momento em que o produto precisou mudar drasticamente de rumo? Como foi decidir isso?
Sim. A ideia inicial era uma plataforma ampla de testes. Lançamos diferentes experiências para descobrir o que despertava interesse, e a coloração pessoal se destacou de forma consistente. A decisão foi abandonar a ambição de fazer muitos testes desconectados e aprofundar a jornada de moda, estilo e imagem pessoal. Foi uma mudança importante, mas guiada por dados, não por gosto pessoal.
Conte um bastidor: o que quase fez a TikTests desistir?
Não houve um único momento cinematográfico de desistência. O que houve foi o desgaste acumulado de uma equipe enxuta, sem investimento externo e sem dedicação integral, conciliando trabalho, produto, suporte e burocracia. Em alguns momentos, reescrever a plataforma parecia começar novamente. O que nos manteve foi ver pessoas usando, compartilhando e pagando pelo produto.
Como a filosofia "prova, não promessa" guia as decisões do dia a dia?
Significa que preferimos uma evidência pequena a uma afirmação grandiosa. Primeiro lançamos, medimos e aprendemos; depois falamos. A coloração se tornou o foco porque os usuários provaram a demanda. O premium existe porque houve sinais de disposição a pagar antes mesmo do lançamento. A expansão internacional é prioridade porque já recebemos clientes e receita de fora. A prova reduz o ego e melhora a decisão.
Como o senhor se sentiu ao ver o trabalho da equipe reconhecido com o 1º lugar?
Senti alegria, alívio e responsabilidade. A conquista reconhece muitas horas de trabalho que não aparecem no palco: testes, conversas, telas refeitas e decisões difíceis. Também pensei imediatamente na equipe e em todos os parceiros que nos ajudaram. O primeiro lugar não encerra uma jornada; ele aumenta a responsabilidade de aproveitar bem a oportunidade e representar o Piauí em Lisboa.
Bloco 8 — Futuro e legado
Quais são os próximos passos da TikTests depois do Web Summit?
O primeiro passo é transformar contatos em projetos concretos. Queremos avançar em parcerias com marcas e varejistas, ampliar a distribuição na Europa e preparar a empresa para conversas de investimento. No produto, continuaremos desenvolvendo o guarda-roupa virtual, o assistente de estilo e jornadas interconectadas. Também precisamos fortalecer métricas, conformidade de dados, atendimento e equipe para crescer com qualidade.
Como o senhor vê o impacto dessa participação para o futuro da tecnologia no Piauí?
Uma participação como essa amplia o imaginário do que é possível. Quando uma startup de Picos chega ao Web Summit com produto, usuários e receita, outros estudantes e empreendedores percebem que não precisam esperar uma oportunidade vir de fora para começar. O impacto maior é criar referência, abrir conexões e devolver experiência ao ecossistema, para que outras empresas piauienses cheguem ainda mais longe.
Que conselho daria aos jovens empreendedores piauienses que estão começando?
Comecem pelo problema, não pela tecnologia. Conversem com usuários antes de buscar perfeição e lancem algo pequeno o suficiente para ser testado. Usem o ecossistema: professores, instituições, programas e outros empreendedores podem encurtar caminhos. E não confundam visibilidade com negócio. Curtidas ajudam, mas o que sustenta uma empresa é resolver um problema de forma repetível e gerar valor real.
Qual é o sonho de longo prazo para a TikTests?
O sonho é fazer da TikTests o primeiro lugar que as pessoas procuram quando querem entender melhor a própria imagem. Queremos construir uma plataforma global que una inteligência, estética e leveza, ajudando cada usuário a vestir o que já é com mais clareza e confiança. Crescer, para nós, não é fazer tudo; é fazer muito bem uma jornada que seja útil, acessível e humana.
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Comentários (1)
Parabéns ao Farol Municipal e ao autor Wedson Bezerra Pereira pela reportagem tão cuidadosa, completa e tecnicamente responsável. A matéria conseguiu apresentar não apenas a conquista da TikTests, mas também a força da educação, da inovação e do empreendedorismo que nascem no interior do Piauí. Fico muito grato pelo espaço, pela escuta atenta e pela qualidade das perguntas, que permitiram contar nossa trajetória com profundidade e precisão. Iniciativas assim valorizam quem constrói soluções no estado e mostram que o Piauí tem talento e tecnologia com alcance global. Muito obrigado ao Farol Municipal por iluminar histórias que merecem chegar cada vez mais longe!
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