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A engenharia do impossível: no sul do Piauí, um prefeito encontrou uma forma de apoiar três candidatos ao Senado com apenas dois votos

Há cidades no Brasil onde a política se faz com palanque, carro de som e bandeira. E há uma, no extremo sul do Piauí, onde ela se faz com aritmética.

26 de agosto de 2026 às 16:18 103 visualizações

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Fonte: WIKIPÉDIA

 

Morro Cabeça no Tempo — 4.217 eleitores, 2.207 km², densidade de menos de dois habitantes por quilômetro quadrado — poderá entrar para a história das eleições de 2026 como o município onde um prefeito bolou uma estratégia que, à primeira vista, desafia a matemática: apoiar três candidatos ao Senado Federal em uma chapa onde cada eleitor só pode votar em dois.


Prefeito Josué Alves (Imagem do Instagram pessoal)

 

O prefeito Josué Alves da Silva (PP), reeleito em 2024 com 72,69% dos votos, anunciou em suas redes sociais a orientação de voto dividida por zonas do município. Na zona rural, pede votos para os senadores Ciro Nogueira (PP) e Marcelo Castro (MDB), ambos em busca de reeleição. Na zona urbana, orienta o eleitorado a votar em Júlio César (PSD), deputado federal na chapa do governador Rafael Fonteles (PT), e novamente em Ciro Nogueira. O senador do Progressistas é a única unanimidade — o ponto de equilíbrio que sustenta toda a estrutura.

 

A divisão não se limita ao Senado. Para deputado federal e estadual, o prefeito também separou as indicações por zona: Georgiano (federal) e Severo (estadual) na urbana; Julio Arcoverde (federal) e Breno Macedo (estadual) na rural. As únicas indicações comuns a todos os moradores são Ciro Nogueira para o Senado e Rafael Fonteles para o governo do Estado.

 

Para o eleitor desavisado, a conta não fecha. Mas o que parece contradição é, na verdade, uma arquitetura política cuidadosamente desenhada — e que, examinada de perto, revela menos uma audácia eleitoral e mais um retrato fiel das dificuldades de governar no interior profundo do Brasil.

Fonte: Instagram @prefeito_josuealves

 

A geografia que sustenta a estratégia

Os 4.217 eleitores de Morro Cabeça no Tempo distribuem-se em sete locais de votação. Os dois maiores — Unidade Escolar Leda Napoleão (1.256 eleitores) e Unidade Escolar Pequenos Brilhantes (841) — estão na sede urbana. Os demais — Prédio Escolar da Cruz (987), Baixão do Mel (425), Desejado (393), Guaipaba (183) e Cajueiro (132) — estão em localidades rurais.

 

Essa divisão natural entre cidade e campo é o que permite a engenharia. Cada zona recebe uma orientação diferente, e nenhum eleitor é privado de seus dois votos para o Senado. O que muda é para quem esses votos vão. Na prática, o prefeito transformou a geografia eleitoral do município em um tabuleiro onde cada peça tem função específica.

 

O modelo é possível porque 2026 é um ano de renovação de dois terços do Senado. O Brasil adota um sistema de rodízio: a cada oito anos, o eleitor vota em dois candidatos ao Senado — e dois senadores são eleitos por estado. Quatro anos depois, vota-se em apenas um. Depois, oito anos novamente em dois, e assim por diante. Em 2026, como em 2018, 2010, 2002 e anos anteriores do ciclo, cada estado elege dois senadores de uma só vez, renovando 54 das 81 cadeiras da Casa. O eleitor encontra na urna duas telas para o Senado — vota no primeiro candidato, depois no segundo. Se repetir o mesmo nome, o segundo voto é anulado. Por isso, o TSE tem veiculado campanhas educativas orientando o eleitor a anotar os dois números antes de entrar na cabine.

 

Um Estado onde sobram candidatos e faltam vagas

O Piauí tem, em 2026, a maior disputa senatorial do país: vinte candidatos para duas vagas, uma média de dez concorrentes por cadeira. É nesse cenário de competição intensa que a estratégia de Josué Alves ganha sentido. Ao distribuir apoios entre PP, MDB e PSD — e ao manter o governador petista como unanimidade —, o prefeito cobre três das principais forças políticas do Estado e garante que, qualquer que seja o resultado, Morro Cabeça no Tempo terá ao menos um aliado na bancada senatorial.

 

Ciro Nogueira, o nome apoiado em toda a cidade, é do mesmo partido do prefeito e exerce mandato no Senado desde 2011. A articulação entre os dois é pública: o site da Prefeitura registra encontros em Brasília durante a Marcha dos Prefeitos, em busca de emendas parlamentares. Marcelo Castro (MDB), o segundo nome na zona rural, é o outro senador em exercício pelo Piauí. Júlio César (PSD), indicado apenas na zona urbana, é deputado federal, integra a chapa do governador e aparece em pesquisas de intenção de voto disputando a segunda vaga.

 

Ao apoiar três nomes, Josué Alves não escolhe entre os favoritos — ele os abraça. E ao fazê-lo, maximiza a probabilidade de que pelo menos dois deles sejam eleitos, garantindo ao município mais de uma porta de acesso ao orçamento federal.

 

Os números que justificam a criatividade

Morro Cabeça no Tempo não é um município onde se governa com folga. Segundo dados do IBGE compilados para 2024, as transferências correntes representam 94,67% das receitas correntes brutas — ou seja, quase todo o dinheiro que entra nos cofres municipais vem de Brasília ou de Teresina. O PIB per capita é de R$ 12.180,55 (2023), o IDHM é de 0,542 (faixa "baixo"), e a população estimada para 2025 é de 4.456 habitantes.

 

Em 2026, o Índice de Progresso Social (IPS) — que avalia 57 indicadores de qualidade de vida, incluindo acesso à saúde, educação, direitos individuais e ensino superior — colocou o município na lanterna do Estado, com 50,27 pontos, bem abaixo da média de seu território (55,66). A boa notícia, registrada pelo IPS, é uma evolução de 2,36 pontos em dois anos — insuficiente para tirar a cidade da última posição no ranking estadual, mas suficiente para colocá-la em 11º lugar em avanço social entre os 24 municípios de seu território, a Chapada das Mangabeiras.

 

Mas há um número que foge à lanterna e merece destaque: a educação. Os resultados do IDEB mostram que Morro Cabeça no Tempo está avançando — e avançando rápido. Nos Anos Iniciais do ensino fundamental, o município registrou um crescimento de 55,6%, saindo de 3,6 para 5,6. Nos Anos Finais, o salto foi de 20,5%, passando de 3,9 para 4,7. Enquanto o IPS coloca a cidade na lanterna no Estado, o IDEB a coloca numa trajetória ascendente que contraria o pessimismo dos indicadores gerais.

 

Em suas redes sociais, o prefeito Josué Alves atribuiu o resultado ao trabalho coletivo. "Esses números representam muito mais do que índices; representam o esforço, a dedicação e o compromisso com o futuro das nossas crianças e jovens", escreveu, agradecendo à Secretaria Municipal de Educação, aos gestores escolares, coordenadores, professores, servidores, alunos, pais e responsáveis. "Cada um contribuiu para que esse resultado se tornasse realidade."

 

É nesse contexto de contrastes que a engenhosidade do prefeito ganha outra dimensão. Não é artilharia política pelo prazer da manobra — é a busca racional por aliados capazes de liberar recursos que o município não consegue gerar sozinho. Emendas parlamentares financiam estradas, postos de saúde e equipamentos urbanos. A administração de Josué Alves destaca, em seu perfil oficial no Instagram, a construção de estradas que reduziram o isolamento do município e facilitaram o deslocamento até Corrente, o principal polo regional. O prefeito se autodefine como "gestor de compromisso, obras e resultados".

 

O pragmatismo que atravessa governos

Filiado ao PP — partido que historicamente faz oposição ao PT no Piauí —, Josué Alves construiu ao longo de seus mandatos uma relação de pragmatismo com o governador Rafael Fonteles (PT). Recebeu comitivas oficiais lideradas pelo Palácio de Karnak em busca de repasses para saúde, combate aos lixões e desenvolvimento urbano. A parceria é ostensiva nas redes sociais do prefeito.

 

Em Brasília, a articulação se dá com os senadores Ciro Nogueira e Marcelo Castro, com quem costuma despachar durante as edições da Marcha dos Prefeitos. O que o prefeito faz, na essência, é construir pontes — e o mais notável é que essas pontes não se limitam a um partido ou a uma chapa.

 

A estratégia de 2026 leva esse pragmatismo ao seu ponto máximo. Ao apoiar três candidatos ao Senado em vez de dois, o prefeito reconhece uma realidade que muitos gestores municipais enfrentam em silêncio: em cidades pequenas e dependentes de transferências, não há luxo de escolher lados. Cada senador eleito é um canal, e cada canal pode significar uma estrada, um poço artesiano, uma ambulância.

 

O que diz a lei e os limites da atuação do gestor

A legislação eleitoral brasileira não proíbe a orientação segmentada de votos por região. No entanto, a atuação de prefeitos em campanhas encontra limites rigorosos na Lei nº 9.504/1997 e na jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Advogado Elianderson Moura, especialista em Direito Eleitoral

 

Segundo o especialista em Direito Público, Privado e Eleitoral, advogado Elianderson Moura, “o artigo 73 da Lei das Eleições veda expressamente o uso de bens, serviços, servidores ou recursos da administração pública em benefício de qualquer candidatura, bem como a vinculação eleitoreira de obras ou programas sociais (art. 73, IV e § 10)”.  

 

Procurador-Geral Municipal em Aroeiras do Itaim, Elianderson Moura acrescenta que “embora o prefeito utilize perfil com características pessoais em redes sociais, a Justiça Eleitoral monitora a separação entre atos do mandato e propaganda eleitoral para evitar a configuração de abuso de poder político ou econômico (art. 22 da LC nº 64/90). Além disso, o apoio ostensivo a candidatos de legendas opostas pode suscitar questionamentos perante os órgãos de ética partidária interna (Lei nº 9.096/1995)”.

 

O prefeito explica

Questionado pelo portal FAROL MUNICIPAL sobre a estratégia de apoiar três candidatos ao Senado em uma chapa onde só cabem dois votos, o prefeito Josué Alves respondeu com clareza. Segundo o gestor, a decisão não nasceu de cálculo partidário, mas de uma constatação prática: Morro Cabeça no Tempo precisa de aliados em Brasília, e não pode se dar ao luxo de apostar em um só nome.

 

"Meu partido é Morro Cabeça no Tempo", resumiu o prefeito, em frase que sintetiza sua filosofia política. Josué explicou que a divisão de apoios por zonas — rural e urbana — é uma forma de garantir que cada região do município tenha representatividade junto a pelo menos dois senadores, independentemente de quem sair vitorioso no pleito. "União, trabalho e compromisso para continuar avançando", escreveu ele nas redes sociais ao apresentar sua chapa de apoios.

 

Sobre o risco de confundir o eleitor com orientações diferentes por zona, o prefeito foi objetivo: a estratégia foi comunicada com transparência, cada eleitor sabe em quem votar, e nenhum voto será perdido. "A população entende. Quem é da zona rural vota nos seus candidatos, quem é da zona urbana vota nos seus. O Ciro é a ponte entre os dois lados."

 

Questionado se a estratégia gera compromissos com cada um dos três candidatos, Josué Alves foi direto: "Não é compromisso com candidato. É compromisso com Morro Cabeça no Tempo. Quem for eleito sabe que aqui tem um município que precisa de estradas, de saúde, de educação. E sabe que aqui tem um prefeito que trabalha."

 

O perfil de um gestor que virou arquiteto eleitoral

Josué Alves da Silva nasceu em Corrente (PI), cidade vizinha a Morro Cabeça no Tempo, em 1º de janeiro de 1979. Tem ensino superior completo e atuava como servidor público municipal antes de assumir o Executivo. Chegou à prefeitura em 2020, com 39,87% dos votos em uma disputa de três candidatos. Quatro anos depois, reeleito com 72,69% — um salto de mais de 30 pontos percentuais que indica consolidação política rara para um município desse porte.

 

Seu principal opositor, Ramon Paulo (PDT), obteve 27,31% em 2024 — menos de um terço dos votos válidos. Mas se perdeu a prefeitura, não desapareceu do tabuleiro. Ramon Paulo também publicou em suas redes os candidatos que apoia em 2026: Lula (PT) para presidente, Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD) para o Senado, Zé Santana (PT) para deputado federal e Marcus Kalume (PT) para deputado estadual.

Fonte: Instagram @ramonpaulo12

 

O cruzamento é curioso. Para o Senado, Josué apoia Ciro Nogueira nas duas zonas, completando com Marcelo na rural e Júlio César na urbana. Ramon, por sua vez, aposta na dupla Marcelo e Júlio César — sem Ciro. Os dois rivais concordam em dois dos três nomes, mas divergem no que para Josué é pedra angular: o senador do PP. Para deputado federal e estadual, as escolhas também não se cruzam. Enquanto o prefeito divide Georgiano e Julio Arcoverde entre zonas, Ramon aposta em Zé Santana e Marcus Kalume, ambos do PT.

 

É aqui que Morro Cabeça no Tempo revela outra dimensão do seu isolamento. O Piauí tem, em 2026, 163 candidatos a deputado federal disputando 10 vagas, e 151 candidatos a deputado estadual disputando cadeiras na Assembleia Legislativa — números que configuram uma das disputas proporcionais mais congestionadas do país. Para um eleitor de Morro Cabeça no Tempo, conhecer sequer uma fração desses nomes seria humanamente impossível sem a campanha de rádio e televisão. O horário eleitoral gratuito é, para cidades como essa, a única vitrine onde candidatos sem estrutura local conseguem chegar. O prefeito e seu opositor, ao indicar nomes específicos, funcionam como curadores — filtram o ruído e transformam uma cédula intransponível em uma decisão viável.

 

A base eleitoral de Josué é, portanto, ampla e robusta, mas não hegemônica. Os 991 votos de Ramon Paulo representam quase um terço do eleitorado — uma minoria significativa que, em 2026, receberá orientação diferente para o Senado e para a Câmara. Em um Estado onde a diferença entre eleger e não eleger um senador pode ser de milhares de votos, cada orientação tem efeito multiplicador.

 

O que pode dar errado — e o que pode dar certo

A estratégia tem riscos. Há a possibilidade de que a fragmentação de apoios dilua a identidade da chapa municipal. Em vez de um "tiro certeiro", o prefeito aposta em "tiros de espalhada" — e nem sempre a espalhada atinge o alvo. Se nenhum dos três candidatos ao Senado se sentir devedor do município, a estratégia pode render menos do que o esperado.

 

Mas há também o cenário otimista — e é ele que parece guiar o prefeito. Se dois dos três apoiados forem eleitos, Morro Cabeça no Tempo terá dois senadores com razões para atender ao município. Em um Estado com 20 candidatos ao Senado e margens apertadas, ter dois aliados na bancada pode fazer diferença entre uma emenda aprovada e uma emenda engavetada.

 

O que Morro Cabeça no Tempo ensina ao Brasil

O caso deste município do sul piauiense não é apenas uma curiosidade eleitoral. É um retrato do Brasil interiorano — onde a distância entre o eleitor e o recurso público é imensa, e onde a criatividade política não é capricho, mas ferramenta de sobrevivência administrativa.

 

Morro Cabeça no Tempo tem a menor frota de veículos do Piauí. Seus eleitores votam em escolas rurais espalhadas por um território do tamanho de alguns países europeus. Seu IDHM está na faixa "baixo", e seu IPS é o menor do Estado. Mas tem um prefeito que, em vez de lamentar os números, procura transformá-los em aliados — e usa a única moeda que tem em abundância: o voto de uma base fiel.

 

A engenhosidade de Josué Alves não está em apoiar três candidatos ao Senado. Está em ter percebido que, em uma cidade onde quase tudo precisa melhorar, não há espaço para apostar em um único nome. A aposta é na diversificação — e, no interior do Brasil, diversificar aliados pode ser tão importante quanto diversificar a economia.

 

Em 4 de outubro, os 4.217 eleitores de Morro Cabeça no Tempo irão às urnas. Na zona rural, muitos votarão em Ciro e Marcelo. Na zona urbana, em Ciro e Júlio César. Ou em Júlio César e Marcelo, seja no interior ou na cidade, a pedido do principal opositor. E, qualquer que seja o resultado, o nome deste município esquecido no extremo sul piauiense ficará associado a uma ideia singela e poderosa: que quando a urna não cabe todos os nomes, a criatividade encontra o caminho.

 

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Fontes consultadas: TSE (Divulgação de Candidaturas e Contas); IBGE Cidades; Agência Senado; Lei nº 9.504/1997 e Resolução TSE nº 23.610/2019; IPS Brasil 2026; portal Meio Norte; portal G1; portal InfoMoney; Câmara dos Deputados; site da Prefeitura de Morro Cabeça no Tempo; Instagram @prefeito_josuealves. 

Por: Wedson Bezerra Pereira – Consultor Sênior em Gestão Pública. Criador do MGI – Método Gestão de Impacto.
Do FAROL MUNICIPAL, em Teresina-PI, 26 de agosto de 2026

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