O Abismo Silencioso do Cerrado Piauiense: por que o progresso social não chega aos Tabuleiros do Alto Parnaíba?
No extremo sul-sudoeste do Piauí, um território que produz riqueza agrícola convive com os piores indicadores de qualidade de vida do estado. O IPS Brasil 2026 revela um fosso entre o que se gera e o que se entrega.
Agronegócio em Baixa Grande do Ribeiro (Imagem www.pi.gov.br)
O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, divulgado em maio, não deixa margem para interpretações otimistas quando se observa o Território dos Tabuleiros do Alto Parnaíba. Dos 5.570 municípios brasileiros avaliados com base em 57 indicadores sociais e ambientais, os cinco últimos colocados dessa região — Canavieira (53,41), Baixa Grande do Ribeiro (54,20), Jerumenha (55,22), Sebastião Leal (56,47) e Uruçuí (57,84) — formam um bloco de carências estruturais que contrasta frontalmente com o potencial econômico do território. Nenhum deles alcança a média do Piauí (60,48), e todos estão ainda mais distantes da média nacional (63,40) e do melhor desempenho do país, Gavião Peixoto/SP (73,10).
1. O TERRITÓRIO E SEUS CONTRASSENSOS
Composta por 12 municípios, a região dos Tabuleiros do Alto Parnaíba ostenta uma média de IPS de 57,54 — quase três pontos abaixo da média do Piauí (60,48) e mais de cinco pontos aquém da média brasileira (63,40). O contraste com Gavião Peixoto/SP, líder nacional com 73,10, escancara a distância que separa a região dos patamares mínimos desejáveis de desenvolvimento humano.
Os 12 municípios do território, por IPS 2026:
|
Posição |
Município |
IPS 2026 |
IPS 2024 |
Evolução |
|
1º |
Marcos Parente |
61,15 |
58,74 |
+2,41 |
|
2º |
Landri Sales |
59,70 |
56,90 |
+2,80 |
|
3º |
Porto Alegre do Piauí |
58,82 |
58,35 |
+0,47 |
|
4º |
Guadalupe |
58,70 |
59,69 |
-0,99 |
|
5º |
Bertolínia |
58,52 |
57,13 |
+1,39 |
|
6º |
Ribeiro Gonçalves |
58,39 |
54,03 |
+4,36 |
|
7º |
Antônio Almeida |
58,11 |
59,43 |
-1,32 |
|
8º |
Uruçuí |
57,84 |
57,01 |
+0,83 |
|
9º |
Sebastião Leal |
56,47 |
54,61 |
+1,86 |
|
10º |
Jerumenha |
55,22 |
53,07 |
+2,15 |
|
11º |
Baixa Grande do Ribeiro |
54,20 |
50,63 |
+3,57 |
|
12º |
Canavieira |
53,41 |
49,34 |
+4,07 |
Fonte: ipsbrasil.org.br
2. OS NÚMEROS QUE REVELAM O ABISMO
As três dimensões que compõem o IPS — Necessidades Básicas (nutrição, saúde, saneamento, moradia), Bem-estar (acesso a conhecimento, comunicação, qualidade ambiental) e Oportunidades (direitos individuais, inclusão social, acesso ao ensino superior) — expõem um padrão inequívoco: a dimensão Oportunidades é a âncora que puxa todos os municípios para baixo, com destaque dramático para Canavieira.
|
Município |
IPS 2026 |
Necessidades Básicas |
Bem-estar |
Oportunidades |
|
Uruçuí |
57,84 |
68,95 |
57,15 |
47,43 |
|
Sebastião Leal |
56,47 |
68,58 |
52,40 |
48,42 |
|
Jerumenha |
55,22 |
67,05 |
51,77 |
46,84 |
|
Baixa Grande do Ribeiro |
54,20 |
65,75 |
51,36 |
45,50 |
|
Canavieira |
53,41 |
66,10 |
56,94 |
37,19 |
O dado mais contundente está em Canavieira: sua nota em Oportunidades (37,19) é a mais baixa entre todos os 12 municípios do território, sugerindo um bloqueio quase total à mobilidade social — acesso precário ao ensino superior, baixa inclusão produtiva e direitos individuais fragilizados. Se essa dimensão fosse equiparada à média do Piauí, o IPS geral de Canavieira subiria mais de seis pontos.
3. PERFIL DOS CINCO MUNICÍPIOS
3.1. Canavieira — IPS 53,41 | Ranking nacional: 5.237°
Canavieira ocupa a última posição entre os 12 municípios dos Tabuleiros do Alto Parnaíba, e é o retrato da fragilidade econômica, detendo o menor VA ICMS da região: apenas R$ 5.334.576,49. Entretanto, o município protagoniza a história mais surpreendente do biênio: saltou de um IPS de 49,34 em 2024 para 53,41 em 2026. Esta evolução de +4,07 é a maior entre os cinco analisados, indicando que, mesmo com recursos limitados, políticas focais podem gerar impactos rápidos em bases muito degradadas.
O perfil das três dimensões revela uma assimetria gritante: enquanto Necessidades Básicas (66,10) e Bem-estar (56,94) apresentam números medianos para os padrões do território, Oportunidades desaba para 37,19 — mais de dez pontos abaixo de qualquer outro município do grupo. O número sugere que a população de Canavieira, estimada em cerca de 3.900 habitantes, enfrenta barreiras severas de acesso à educação superior, à inclusão produtiva e a direitos fundamentais de cidadania.
A prefeita Érika (PT), eleita em 2024 com 51,98% dos votos, está em seu primeiro mandato, após dois mandatos como vereadora. Sua gestão começa com o desafio mais urgente do território: reverter indicadores que colocam Canavieira na lanterna do IPS regional.
3.2. Baixa Grande do Ribeiro — IPS 54,20 | Ranking nacional: 5.121°
O segundo pior IPS do território esconde um paradoxo. O município está inserido em uma das regiões de maior expansão do agronegócio no sul do Piauí, com produção crescente de soja e milho. Aqui reside o primeiro grande paradoxo. Baixa Grande do Ribeiro possui o segundo maior VA ICMS do território, ultrapassando R$ 1,94 bilhão. Apesar da pujança, o município amarga a penúltima posição em progresso social. Houve uma evolução positiva de +3,57 desde 2024, mas o descompasso entre a riqueza gerada pelo agronegócio e a entrega de serviços básicos à população permanece como uma lacuna crítica de gestão.
Um dos gargalos, a dimensão Necessidades Básicas (65,75) — a pior entre os cinco municípios neste quesito — indica que a infraestrutura social não acompanhou o ciclo econômico. Saneamento básico, moradia e acesso a serviços de saúde estão abaixo do que seria esperado para uma região em crescimento.
O prefeito Dr. Zé Luís (PT) foi reeleito em 2024. A continuidade administrativa oferece tanto a vantagem da experiência de gestão quanto o ônus da responsabilidade direta pelos indicadores atuais — se o IPS não avançou durante seu mandato anterior, isso impõe uma cobrança legítima sobre suas novas políticas.
3.3. Jerumenha — IPS 55,22 | Ranking nacional: 4.901º
Jerumenha, às margens do rio Parnaíba, apresenta um perfil de carências distribuídas de forma mais homogênea entre as três dimensões. Necessidades Básicas (67,05), Bem-estar (51,77) e Oportunidades (46,84) estão todas abaixo da média estadual, com destaque negativo para as duas dimensões que afligem o território como um todo: Bem-estar e Oportunidades. Com um VA de pouco mais de 29 milhões, o segundo menor entre os cinco lanternas e 66 vezes menor que o de Baixa Grande do Ribeiro, teve uma evolução entre 2024 e 2026 de 2,15 pontos no IPS.
O prefeito Júnior Nato (PT) foi reeleito em 2024. A exemplo de Baixa Grande do Ribeiro, a reeleição impõe o desafio de demonstrar avanços mensuráveis no próximo ciclo do IPS (2027), sob pena de consolidar a imagem de estagnação.
3.4. Sebastião Leal — IPS 56,47 | Ranking nacional: 4.563º
Com o melhor desempenho entre as Necessidades Básicas do grupo (68,58) e o maior índice de Oportunidades (48,42), Sebastião Leal ainda assim está longe da média estadual. A prefeita Manoelina Borges (PSD) foi reeleita em 2024 com 54,09% dos votos, derrotando o candidato do PT. Seu segundo mandato será decisivo para consolidar avanços — se houveram — ou para explicar a persistência de indicadores abaixo de 60 pontos.
Mesmo com um VA ICMS expressivo de R$ 454 milhões, o crescimento do IPS foi modesto (+1,86). O município apresenta um desempenho razoável em Acesso ao Conhecimento (77,45), mas falha em fundamentos básicos: Água e Saneamento (60,36) e Moradia (67,04) são pontos de vulnerabilidade que impedem o avanço para o próximo nível de desenvolvimento social.
3.5. Uruçuí — IPS 57,84 | Ranking nacional: 4.045°
Uruçuí é, de longe, o maior e mais dinâmico município do território. Polo do agronegócio e um dos pilares econômicos da região MATOPIBA (fronteira agrícola entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e a quarta cidade que mais se desenvolve nessa área, a cidade representa o paradoxo mais emblemático dos Tabuleiros do Alto Parnaíba: o município que mais gera riqueza é apenas o quinto colocado quando se mede qualidade de vida, e mesmo assim com um IPS (57,84) que o coloca entre os 30% piores do país.
Com um VA ICMS astronômico de R$ 3,1 bilhões, o seu progresso social é quase estático, com uma evolução de apenas +0,83 — a menor do grupo. Sua dimensão mais forte é Necessidades Básicas (68,95), a melhor do grupo. O pilar de Oportunidades (47,43) é o seu "calcanhar de Aquiles", revelando que a maior economia do território ainda não consegue oferecer inclusão social, acesso ao ensino superior e qualidade de vida de forma proporcional ao seu poderio financeiro.
O prefeito Dr. Gilberto Jr (PP) foi eleito em primeiro mandato com expressivos 74,18% dos votos, a maior votação proporcional entre os cinco municípios. Sua gestão começou com o capital político necessário para promover transformações estruturais.
4. A Vilã Comum: A Dimensão Oportunidades
A leitura transversal dos dados revela um padrão inequívoco: a dimensão Oportunidades é o grande ponto de estrangulamento do território. Em Canavieira, o indicador de 37,19 é o terceiro menor no Piauí, superando apenas São Pedro do Piauí (35,47) e Dom Inocêncio (35,08). Em Baixa Grande do Ribeiro (45,50), Jerumenha (46,84) e Uruçuí (47,43), os números indicam que a inclusão social, o acesso ao ensino superior, os direitos individuais e a participação política estão muito aquém do mínimo desejável. Sem oportunidades, a riqueza gerada pelo agronegócio permanece concentrada, e a mobilidade social torna-se uma promessa distante para os jovens da região.
Isso significa que, mesmo quando as necessidades mais básicas são parcialmente atendidas — como em Uruçuí, onde Necessidades Básicas chega a 68,95 —, a população não encontra os canais para ascender socialmente. A ausência de oportunidades perpetua o ciclo de pobreza e baixa mobilidade social, e ajuda a explicar por que a riqueza gerada na região não se traduz em qualidade de vida.
5. O PARADOXO DA RIQUEZA QUE NÃO VIRA VIDA
Nenhum dado ilustra melhor a "Crise de Conversão" que assola o território do que a relação entre o Valor Adicionado (VA) do ICMS e o IPS de cada município. A planilha de rankings revela um divórcio quase completo entre capacidade fiscal e progresso social.
VA ICMS 2024 × IPS 2026 — A Correlação Perdida
|
Município |
VA ICMS 2024 (R$) |
IPS 2026 |
Ranking BR |
Eficiência de Conversão |
|
Uruçuí |
3.102.776.376,03 |
57,84 |
4045° |
Crítica — maior VA do território, progresso mediano |
|
Baixa Grande do Ribeiro |
1.941.322.877,84 |
54,20 |
5121° |
Gravíssima — 2º maior VA, 2º pior IPS |
|
Ribeiro Gonçalves |
763.074.738,77 |
58,39 |
3810° |
Moderada — VA elevado, IPS acima da média territorial |
|
Sebastião Leal |
454.658.174,29 |
56,47 |
4563° |
Ruim — VA expressivo, progresso insuficiente |
|
Guadalupe |
323.225.639,48 |
58,70 |
3666° |
Moderada — melhor IPS do grupo de baixo |
|
Antônio Almeida |
138.266.502,04 |
58,11 |
3931° |
Moderada |
|
Landri Sales |
83.772.477,46 |
59,70 |
3183° |
Boa — menor VA, melhor IPS relativo |
Fonte: ipsbrasil.org.br
O caso mais emblemático é Baixa Grande do Ribeiro: o município movimenta quase R$ 2 bilhões em Valor Adicionado, mas ocupa a 5121ª posição no ranking nacional de progresso social, a 204ª no estado, e tem o segundo pior IPS do território (54,20). A gestão do prefeito Dr. Zé Luís (PT), reeleito em 2024, administra uma máquina fiscal robusta — mas essa pujança não se traduz em bem-estar para a população. O município é uma demonstração viva do que o Método Gestão de Impacto (MGI) classifica como "Falha Crítica de Conversão": a riqueza gerada pelo agro circula nas fazendas, mas não atravessa os portões das prefeituras para se materializar em saneamento, saúde e oportunidades.
Uruçuí, por sua vez, apresenta a maior arrecadação do território — mais de R$ 3,1 bilhões em VA ICMS — mas registra o 5º pior IPS (57,84) e a menor evolução entre os cinco municípios analisados (+0,83). Isso significa que, apesar de dispor de recursos fiscais inimagináveis para a maioria dos municípios brasileiros, o progresso social praticamente estagnou entre 2024 e 2026. O prefeito Dr. Gilberto Jr (PP), eleito em 2024 para o primeiro mandato, herda um desafio de gestão que não se resolve apenas com arrecadação.
No extremo oposto, Canavieira tem o menor VA ICMS do território — apenas R$ 5,33 milhões — e o pior IPS (53,41). Mas apresentou a maior evolução proporcional entre 2024 e 2026 (+4,07). Sob a gestão da prefeita Érika Albuquerque (PT), em primeiro mandato, o município mostra que mesmo com recursos escassos é possível avançar. O problema é que o ponto de partida era tão baixo que, mesmo com a maior alta, Canavieira ainda ocupa a lanterna do território e a 214ª posição no ranking estadual.
Sebastião Leal (R$ 454,6 milhões de VA, IPS 56,47) e Jerumenha (R$ 29,3 milhões de VA, IPS 55,22) completam o bloco. O primeiro, sob a gestão de Manoelina Borges (PSD) em primeiro mandato, tem recursos expressivos, mas avançou apenas +1,86. O segundo, com o prefeito Júnior Nato (PT), reeleito, teve evolução de +2,15 — número que soa mais como recuperação de terreno perdido do que como salto de qualidade.
6. A Grande Contradição: Riqueza X Qualidade de Vida
A comparação entre o poder fiscal e o progresso social revela que a arrecadação não é garantia de bem-estar. O quadro abaixo detalha essa desconexão:
|
Município |
IPS 2024 |
IPS 2026 |
Evolução |
VA ICMS (R$) |
Pior Dimensão |
|
Uruçuí |
57,01 |
57,84 |
+0,83 |
3.102.776.376,03 |
Oportunidades (47,43) |
|
Baixa Grande do Ribeiro |
50,63 |
54,20 |
+3,57 |
1.941.322.877,84 |
Oportunidades (45,50) |
|
Sebastião Leal |
54,61 |
56,47 |
+1,86 |
454.658.174,29 |
Oportunidades (48,42) |
|
Jerumenha |
53,07 |
55,22 |
+2,15 |
29.349.953,09 |
Oportunidades (46,84) |
|
Canavieira |
49,34 |
53,41 |
+4,07 |
5.334.576,49 |
Oportunidades (37,19) |
A análise demonstra que municípios como Canavieira, com recursos escassos, conseguem imprimir uma velocidade de melhora superior à de Uruçuí, que detém 580 vezes mais VA ICMS. Isso sugere que a eficiência da gestão pública e a focalização do gasto são mais determinantes para o progresso social do que o volume bruto de recursos em caixa.
O fosso entre a capacidade produtiva e o progresso social nos Tabuleiros do Alto Parnaíba não é um acaso. A região concentra uma fronteira agrícola em expansão com soja, milho e pecuária. No entanto, os dados do IPS mostram que a conversão de riqueza em bem-estar é quase nula.
A literatura do IPS Brasil 2026 confirma que esta é uma tragédia nacional: dezoito das vinte piores cidades do país estão no Norte e Nordeste. Os Tabuleiros do Alto Parnaíba são a expressão local de um fenômeno estrutural: a riqueza gerada não encontra mecanismos de distribuição social.
7. Análise de Gestão: a inércia da continuidade e o custo da oportunidade
O cruzamento dos dados de gestão com a evolução do IPS 2024–2026, agora disponível, expõe uma camada mais profunda da realidade dos Tabuleiros do Alto Parnaíba. Os números revelam que, mesmo na parte inferior da tabela, há movimentos — e nem todos são de estagnação.
|
Município |
Prefeito(a) |
Partido |
Status |
IPS 2026 |
Evolução 24–26 |
|
Uruçuí |
Dr. Gilberto Jr |
PP |
Novo Mandato |
57,84 |
+0,83 |
|
Sebastião Leal |
Manoelina Borges |
PSD |
Reeleita |
56,47 |
+1,86 |
|
Jerumenha |
Júnior Nato |
PT |
Reeleito |
55,22 |
+2,15 |
|
Baixa Grande do Ribeiro |
Dr. Zé Luís |
PT |
Reeleito |
54,20 |
+3,57 |
|
Canavieira |
Érika Albuquerque |
PT |
Novo Mandato |
53,41 |
+4,07 |
A leitura mais imediata é que todos os cinco municípios apresentaram evolução positiva no período — o que, isoladamente, é uma boa notícia. Mas o tamanho e o contexto desse avanço contam histórias muito diferentes.
7.1. O paradoxo de Uruçuí: o motor que quase não anda
Uruçuí é o caso mais emblemático. O maior município do território, polo do agronegócio, elegeu Dr. Gilberto Jr (PP) com expressivos 74,18% dos votos — o maior índice de aprovação entre os cinco. Seu antecessor, Dr. Wagner Coelho (PP), governou por oito anos (2017–2024) e apoiou diretamente sua candidatura para dar continuidade ao mesmo projeto político-partidário.
Evolução do IPS no período: +0,83.
É um número que convida à reflexão. Oito anos de gestão do mesmo grupo político, em um município com a pujança econômica de Uruçuí, resultaram em um avanço de menos de um ponto no IPS. Isso não é obra do acaso — é sintoma de uma gestão que pode ter priorizado o crescimento econômico sem o contrapeso das políticas sociais, ou que simplesmente não conseguiu fazer a ponte entre a riqueza gerada e a qualidade de vida da população.
Dr. Gilberto Jr conta com capital político abundante e a oportunidade de fazer diferente. O dado de evolução não é uma condenação do passado — é um sinal de que o modelo atual precisa de recalibração.
7.2. Canavieira: o salto do lanterna
Canavieira, com o pior IPS do território (53,41), apresenta paradoxalmente a maior evolução positiva: +4,07. Érika Albuquerque (PT), ex-vereadora da base governista, foi escolhida candidata de sucessão com o apoio direto de Joan Rocha, que governou a cidade de 2017 a 2024 e garantiu a permanência da legenda no Executivo.
A leitura aqui pede nuance. Por um lado, +4,07 é o maior avanço entre os cinco — sinal de que algo começou a mudar. Por outro, Canavieira partiu de um patamar tão baixo que uma evolução de quatro pontos ainda a mantém na última posição. A pergunta que fica é: o ritmo atual de crescimento será sustentável? Ou o salto de 2024–2026 foi apenas a correção de um piso artificialmente baixo?
Para Érika, o primeiro mandato começa com o diagnóstico mais urgente de todo o território e a responsabilidade de mostrar que a mudança de comando — apesar da continuidade partidária — trará uma efetiva mudança de método.
7.3. Reeleitos sob a lupa
Sebastião Leal (Manoelina Borges/PSD, +1,86), Jerumenha (Júnior Nato/PT, +2,15) e Baixa Grande do Ribeiro (Dr. Zé Luís/PT, +3,57) são casos de prefeitos reeleitos que tiveram quase seis anos para apresentar resultados. As evoluções são positivas, mas o ritmo é insuficiente.
Baixa Grande do Ribeiro (+3,57) foi quem mais avançou entre os reeleitos, mas ainda assim seu IPS (54,20) é o segundo pior do território. Dr. Zé Luís tem agora no seu segundo mandato para provar que o ritmo de crescimento pode mais que dobrar.
Jerumenha (+2,15) e Sebastião Leal (+1,86) têm evoluções modestas que, mantidas no ritmo atual, levariam mais de uma década para alcançar a média do Piauí (60,48). O tempo da política não é o tempo das necessidades humanas.
7.4. O preço da continuidade sem método
O dado mais revelador desta análise não está em nenhum município isolado — está no padrão coletivo. Em quatro dos cinco municípios, o mesmo grupo político está no poder há pelo menos seis anos, seja por reeleição (Jerumenha, Sebastião Leal, Baixa Grande do Ribeiro) ou por sucessão patrocinada (Uruçuí, Canavieira). A continuidade administrativa, por si só, não produziu avanços proporcionais ao tempo de gestão.
A inércia não é necessariamente má-fé. Ela pode ser o resultado de um modelo de gestão reativo, sem métricas claras, sem integração entre as secretarias, sem escuta estruturada da população e sem uma narrativa que traduza obras e investimentos em percepção de progresso para o cidadão.
7.5. Ruptura pelo método: uma convocação
Os números do IPS não são uma parede — são uma bússola. Eles mostram exatamente onde cada município precisa investir. Para Canavieira, o gargalo está nas Oportunidades (37,19). Para Baixa Grande do Ribeiro, nas Necessidades Básicas (65,75). Para Uruçuí, na desconexão entre riqueza e bem-estar.
O que esses cinco municípios têm em comum não é a falta de potencial — é a ausência de um método sistemático de gestão que transforme recursos em resultados sociais mensuráveis.
É aqui que a ruptura se impõe como necessidade, não como opção. A continuidade política, para ser legítima, precisa vir acompanhada de uma descontinuidade metodológica. Não se trata de trocar nomes ou partidos — trata-se de trocar a forma de governar.
Um método de gestão orientado por impacto — com metas transversais entre secretarias, indicadores simples e claros, escuta ativa da população como radar de prioridades e comunicação baseada em evidências — é o que pode quebrar o ciclo de inércia. Os dados estão postos. As ferramentas existem. O que falta é a decisão de usá-las.
Os prefeitos eleitos e reeleitos dos Tabuleiros do Alto Parnaíba têm em mãos um diagnóstico que poucos gestores têm: sabem exatamente onde estão, sabem para onde precisam ir e sabem quanto tempo já perderam. A próxima edição do IPS Brasil dirá se escolheram a mudança.
8. CAMINHOS PARA A TRANSFORMAÇÃO — O QUE OS DADOS RECOMENDAM
A "Crise de Conversão" diagnosticada pelos números tem remédio, mas ele não virá de decretos ou de mais arrecadação. Exige uma reestruturação na forma de governar. À luz do Método Gestão de Impacto (MGI), três alavancas emergem como prioridade:
8.1. Integração de Resultados: O fim das "Secretarias-Ilha". Em Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí, onde a arrecadação é alta. mas o IPS é baixo, a criação de um Gabinete de Resultados — com reuniões intersetoriais semanais e metas comuns — pode quebrar o isolamento das pastas. Saúde, Educação e Assistência Social precisam remar juntas, não cada uma no seu timing eleitoral.
8.2. Métricas de Impacto Real: Os gestores precisam substituir o "eu acho" por indicadores objetivos. Também devem abandonar a métrica do "gasto realizado" pela métrica do "impacto gerado". Cada real investido deve ser medido pela sua capacidade de mover os ponteiros do IPS. Não basta inaugurar obras de concreto — é preciso medir se a obra reduziu a evasão escolar, se o posto de saúde aumentou a cobertura vacinal, se o saneamento básico reduziu internações. O IPS oferece um arcabouço pronto de KPIs. Ignorá-lo é gestão cega.
8.3. Escuta Estratégica e Priorização de Oportunidades: Em Canavieira, Jerumenha e Sebastião Leal, onde o pilar de Oportunidades parece ser o gargalo, a prioridade deve ser romper o isolamento da juventude: acesso à educação técnica, conectividade, programas de permanência no campo. As Escolas Família Agrícola (EFAs) de alta tecnologia, financiadas por parcerias público-privadas com o próprio agronegócio local, podem reter talentos e integrar a juventude à cadeia produtiva.
9. O VEREDITO DOS DADOS
Os Tabuleiros do Alto Parnaíba não padecem de falta de recursos. Os números do VA ICMS são eloquentes: Uruçuí sozinha movimenta mais de R$ 3 bilhões. Baixa Grande do Ribeiro beira os R$ 2 bilhões. O problema não está na entrada de dinheiro — está na engrenagem que deveria transformar essa potência fiscal em qualidade de vida para as famílias.
O IPS 2026 é o espelho que a elite política da região precisa enfrentar. Os dados não mentem: Canavieira, Baixa Grande do Ribeiro, Jerumenha, Sebastião Leal e Uruçuí têm, juntos, mais de R$ 5,5 bilhões em Valor Adicionado — e um IPS médio de 55,43, muito abaixo da média nacional. Não é falta de riqueza. É ineficiência na conversão.
Mas os mesmos dados que condenam também apontam a saída. Canavieira mostrou que é possível acelerar mesmo sem recursos. Baixa Grande demonstrou tração positiva. A recuperação é factível — desde que a gestão pública pare de operar no piloto automático e adote um modelo orientado a impacto.
O curto intervalo de um ano até o IPS 2027 exige ações imediatas para reverter os indicadores. A questão é se os gestores terão coragem de trocar a lógica do gasto político, pela busca por resultados sociais rápidos.
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